10/02/2026
Ilha do Sal
De onde quer que eu venha, para onde quer que eu vá, a memória ancestral dos lugares que visito, tomam posse de mim.
Há uma energia nesta ilha que no transe, é como se visse o sangue que me corre nas veias a dançar, a vibrar de saudade, alegria e tristeza ao mesmo tempo.
Quando este povo dança ao som dos batuques, o rebolar das ancas, o ritmo dos seus pés a bater no chão, tudo em mim vibra. Acorda a criança feliz que há em mim. Poucos sabem do poder que este povo tem, em chamar todos os elementos e divindades da natureza. Poucos sabem que a sua música e a sua dança, são formas de invocação, de xamanismo, das nossas forças ancestrais.
É a segunda vez que passo por estas ilhas de marés agitadas e ventos fustigantes. De sol que cedo amanhece e a lua cedo se levanta.
Os nossos primórdios sentem-se por aqui como forças avassaladoras que acordam, vivif**am, o sangue e toda a memória do tempo em que o homem mantinha uma relação por via direta, com os deuses. Por aqui ainda se sente o equilíbrio entre o mundo físico e espiritual.
Tudo corria bem até decidir ir visitar o Porto Antigo. Um lugar fabuloso para mergulhar com todas as características de uma piscina natural mas que na verdade, foi murada pelo homem.
Aos poucos o chacra do coração aperta, a presença das poucas pessoas que lá estavam inspiram-me perigo. Entro e saio imediatamente da água, a sentir-me enclausurada.
Tomo consciência do lugar onde estou e digo a mim própria que não há perigo algum. Aliás umas tantas crianças brincavam e tento me focar nelas, e nas suas gargalhadas.
Tento entrar novamente na água e o chacra do coração f**a cada vez mais apertado. Tudo em mim grita para sair dali. Mente e emoções em pânico, pensamentos e emoções em alerta.
"-Estou presa, enclausurada, em perigo. Tenho de sair daqui!"
Explico ao Sandro o desespero para ir embora partilhando o que estava a pressentir.
E ele, já habituado às minhas viagens astrais diz-me.
"- Amor sabes que estas ilhas e provavelmente este Porto, foram local de passagem, de transferência, de escravos para outros Países.
Estás de certeza a sentir o que eles sentiram."
E assim saímos dali prosseguindo a nossa caminhada.