26/08/2026
A Auriculoterapia como Coadjuvante nos Cuidados de Saúde: Síntese da Evidência Científica
(Martins, Victor V.; 2026)
A Auriculoterapia tem vindo a assumir um lugar crescente entre as intervenções não farmacológicas utilizadas de forma complementar nos cuidados de saúde. O seu interesse contemporâneo decorre não apenas da tradição clínica, mas também da acumulação progressiva de ensaios clínicos randomizados, revisões sistemáticas e meta-análises que procuram avaliar a sua eficácia em diferentes condições. A evidência actualmente disponível não permite apresentar a Auriculoterapia como terapêutica universal ou substitutiva dos tratamentos convencionais, mas sustenta a sua utilização como intervenção coadjuvante em determinadas áreas clínicas muito estudadas, particularmente na dor, sono e ansiedade.
Na área da dor, a evidência é particularmente relevante. Zhang et al. (2025), numa revisão sistemática e meta-análise de 24 estudos envolvendo 2131 doentes submetidos a cirurgia, observaram que a Auriculoterapia esteve associada à redução da intensidade da dor pós-operatória e, de forma especialmente relevante, à diminuição do consumo total de opióides. Os autores classificaram a evidência relativa à redução do consumo de opióides como de qualidade moderada, embora salientem a heterogeneidade entre estudos. (PubMed) Estes dados justificam considerar a Auriculoterapia sobretudo no contexto de analgesia multimodal e não como substituição da analgesia farmacológica.
Resultados igualmente favoráveis têm sido encontrados na dor músculo-esquelética crónica. Lee et al. (2025), numa revisão sistemática e meta-análise de ensaios randomizados, verificaram benefícios da acupressão auricular sobre a intensidade dolorosa, incapacidade funcional e limiar de dor à pressão. Os autores, contudo, salientam que a certeza da evidência varia consoante o outcome analisado e que são necessários estudos metodologicamente mais robustos. (PubMed) Assim, a aplicação clínica tem boa evidência enquanto complemento de estratégias de reabilitação, exercício terapêutico, educação e tratamento dirigido e apropriado.
A insónia e as perturbações do sono constituem outro domínio promissor. Jun et al. (2024), numa meta-análise envolvendo 23 ensaios randomizados e 1689 participantes, encontraram redução significativa do índice Pittsburgh Sleep Quality Index com acupressão auricular. Quando associada aos cuidados habituais, a intervenção apresentou resultados superiores aos cuidados habituais isoladamente e sem relatos de eventos adversos. (PubMed) Mais recentemente, uma network meta-analysis publicada em 2026, incluindo 25 estudos e 2106 doentes com insónia primária, encontrou resultados favoráveis para várias modalidades de Auriculoterapia. (PubMed)
Também na ansiedade existe evidência clínica relevante. Hu et al. (2024) analisaram 25 estudos, envolvendo 1909 participantes, e encontraram uma redução significativa dos níveis de ansiedade associada à acupressão auricular. Os autores concluem que a acupressão auricular pode ser considerada uma intervenção suplementar. (PubMed)
Em populações clínicas mais complexas, a Auriculoterapia tem igualmente sido investigada como complemento dos cuidados convencionais. Por exemplo, uma meta-análise de 2025 envolvendo 1073 doentes oncológicos submetidos a quimioterapia encontrou melhoria da insónia, ansiedade, depressão e fadiga com acupressão auricular, quando comparada com cuidados habituais ou estimulação simulada. (PubMed)
Este tipo de resultado reforça o potencial da Auriculoterapia em cuidados integrativos.
Do ponto de vista científico, um dos aspectos mais interessantes reside na crescente investigação dos mecanismos de neuromodulação auricular. A inervação do pavilhão auricular por ramos do trigémio, plexo cervical e ramo auricular do nervo vago permite formular mecanismos plausíveis envolvendo modulação nociceptiva, sistema nervoso autónomo, tronco cerebral e redes centrais relacionadas com o stress e o sono.
Em síntese, a literatura contemporânea permite considerar a Auriculoterapia uma intervenção complementar plausível em clínica e geralmente de baixo risco quando adequadamente utilizada e apoiada por evidência clínica crescente em algumas áreas específicas. A sua validade como coadjuvante parece actualmente mais consistente na analgesia, particularmente peri-operatória e músculo-esquelética, nas perturbações do sono e na redução de determinados estados de ansiedade. O posicionamento cientificamente mais adequado não consiste em substituir os cuidados médicos convencionais, mas em integrar a Auriculoterapia, quando indicada, em modelos de tratamento multimodal e centrados no doente.
Referências essenciais:
Hu N, Soh KL, Japar S, Li T. Ear-Marking Relief: A Meta-Analysis on the Efficacy of Auricular Acupressure in Alleviating Anxiety Disorders. Complement Med Res. 2024;31(3):266–277. doi:10.1159/000537734. (PubMed)
Jun L, Xiong L, Wen Y, Yongxiang W. Effectiveness of applying auricular acupressure to treat insomnia: a systematic review and meta-analysis. Front Sleep. 2024;3:1323967. doi:10.3389/frsle.2024.1323967. (PubMed)
Lee TKW, Chang JR, Hao D, Fu SN, Wong AYL. The Effectiveness of Auricular Acupressure on Chronic Musculoskeletal Pain: A Systematic Review and Meta-Analysis of Randomized Controlled Trials. J Integr Complement Med. 2025;31(1):25–35. doi:10.1089/jicm.2023.0630. (PubMed)
Zhang G, Xu G, Tang Y, et al. The analgesic effectiveness of auriculotherapy for acute postoperative pain: A systematic review and meta-analysis. Complement Ther Med. 2025;88:103112. doi:10.1016/j.ctim.2024.103112. (PubMed)
Efficacy of auriculotherapies for primary insomnia: a systematic review and network meta-analysis. 2026. Análise de 25 estudos e 2106 participantes. (PubMed)