21/08/2026
Na visão sistémica, quando nos tornamos adultos, somos convidados a olhar para os nossos pais e para a nossa história a partir do lugar de adultos. Um lugar onde podemos compreender que os nossos pais nos deram aquilo que puderam, fizeram aquilo que sabiam fazer e que, dentro das suas próprias limitações, isso foi o que conseguiram dar.
Quando uma pessoa consegue verdadeiramente ocupar esse lugar de adulto, liberta-se de muito peso. A vida pode então tornar-se mais fluida, mais criativa, mais construtiva.
No entanto, há uma coisa que tenho observado ao longo do meu trabalho.
A criança interior, quando foi vítima de negligência, abuso ou maus-tratos, não aceita simplesmente uma frase bonita como resposta para aquilo que viveu.
Não basta dizer: “Os meus pais deram-me aquilo que puderam”, e esperar que algo profundamente doloroso fique, por isso, curado.
Vejo muitas vezes, nos relatos dos meus clientes, um sentimento de culpa por já terem constelado vezes sem conta a relação com os pais e, apesar disso, continuarem sem conseguir libertar-se do peso daquilo que viveram.
E talvez isso aconteça porque a criança ainda não foi verdadeiramente honrada.
O seu melhor interesse foi negligenciado no passado e, quando lhe pedimos que ultrapasse rapidamente aquilo que sofreu, corremos o risco de voltar a negligenciá-la no presente.
Acredito que, para ressignificar uma história assim, o primeiro passo é dar à nossa criança interior aquilo que não lhe foi permitido receber no passado.
Dar-lhe amor.
Cuidados.
Brincadeira.
Atenção.
Dar-lhe o direito de reconhecer profundamente que aquilo que aconteceu não foi justo.
Dar-lhe espaço para sentir raiva.
Para chorar.
Para sentir tristeza.
Para atravessar todas as emoções que, naquele tempo, talvez não pudesse sequer expressar.
E só depois começar, pouco a pouco, o processo de crescimento interior até à idade que temos hoje.
Porque estes processos precisam de tempo.
E em relação aos pais que hoje sentem culpa porque não estiveram tão presentes durante a infância dos seus filhos como gostariam, a culpa não ajuda nada
O que transforma é aquilo que fazemos no presente.
O que ajuda é criar agora uma relação diferente.
Fazer hoje aquilo que ontem não souberam ou não conseguiram fazer.
Mas o que mais acontece são os pais que não estiveram presentes, que não cuidaram dos filhos
Na velhice exigirem aos filhos algo que não lhes deram!
Talvez porque esse pai não tenha cuidado dos próprios filhos, mas tenha cuidado dos seus pais e tenha aprendido que era assim que a vida funcionava.
Também é preciso lembrarmo-nos de onde viemos.
Durante grande parte da nossa história, sobretudo nas camadas mais pobres da sociedade, os filhos nasciam segundo a vontade da natureza. A possibilidade de planeamento familiar, tal como hoje a entendemos, é muito recente.
Durante séculos, os filhos foram também mão de obra.
As famílias eram organismos vivos de sobrevivência do clã.
Cada pessoa tinha uma função.
Sobreviver vinha antes de compreender emoções, traumas, necessidades afetivas ou processos de individuação.
É bom lembrarmo-nos disto.
para compreendermos a dimensão histórica das nossas feridas.
O desenvolvimento pessoal, uma certa espiritualidade New Age e até algumas terapias alternativas fizeram-nos acreditar que temos de viver sem dores para sermos felizes.
Como se sentir dor significasse que ainda não estamos suficientemente curados.
Como se sofrer fosse sinal de imperfeição.
Vivemos um momento histórico de fantasia
Onde todos temos que ser famosos
Ter inteligência emocional
Não ter barriga
Não envelhecer
Não ter dores
Doenças
Sermos milionários
Fazer musculação
Tomar 50 suplementos matinais
Não ter dívidas
Lavar a cara
Os dentes
Colocar cremes não ter celulite
E se fores mulher
Não viver mais de 25 anos
É sabido que depois dos 25 anos
Somos velhas…
A sociedade tem hoje condições para vivermos melhor do que alguma vez vivemos.
Em muitos aspetos, uma pessoa comum vive hoje com confortos que nenhum rei do passado conheceu.
Mas porque razão estamos tão vazios e infelizes?
Porque estamos a viver uma fantasia!
Se voltares a olhar a vida sem o filtro do teu telemóvel vais perceber
“Que ainda somos os mesmos “
Como dizia a saudosa Elis Regina
Na canção nos anos 70
A natureza
As crianças
As paixões
Da possibilidade de amar e de sermos amados.
Existe hoje um enorme interesse económico e político em manter as pessoas num estado permanente de insatisfação.
Para consumirmos cada vez mais !
O vazio não se preenche com nada que possa ser consumivel
O vazio trata-se com uma relação simples com a vida
De plena aceitação de quem és
E o cultivo do interesse genuíno
Pela possibilidade de existir
Respirar
Rir
Provar novos sabores
Conhecer a essência das coisas vivas…
Reduzir
Silenciar
Amar todas as partes de ti
Mesmo as feridas
As quebradas
As abandonadas e imperfeitas
Incluir tudo!
Isso sim é o caminho para a cura sistémica
Não participar nesta guerra atual que acontece
Nas redes de segregação constante
De alguém ou de qualquer coisa….
Um beijinho
Com amor
Rute Alegria