ANaMeT Associação Nacional dos Médicos de Medicina do Trabalho

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SAÚDE (DO) PÚBLICA(O) (82) — QUINTA DE ONZE PARTES: A máquina e a carne: a Revolução Industrial e a questão operária🎯  T...
02/09/2026

SAÚDE (DO) PÚBLICA(O) (82) — QUINTA DE ONZE PARTES:

A máquina e a carne: a Revolução Industrial e a questão operária

🎯 Tema do artigo: no dealbar do século XIX, a máquina a v***r mudou o mundo — e, com ele, o corpo de quem trabalha.
As fábricas tiveram uma produção sem precedentes e, ao mesmo tempo, um sofrimento em escala nunca vista: jornadas esgotantes, trabalho de mulheres e crianças, mutilações e doenças novas.
Foi deste choque que nasceu a «questão operária» — e as primeiras leis que reconheceram que o progresso não pode custar a saúde de quem o produz.

🏭 A fábrica muda tudo

Com a máquina a v***r e a indústria têxtil, a partir de finais do século XVIII, o trabalho deixa a oficina do artesão e entra na fábrica.

A mudança é de natureza, não apenas de grau. Onde antes havia um mestre que dominava todo o seu ofício, passa a haver um operário preso a um gesto repetitivo, ao ritmo da máquina, 12, 14, 16 horas por dia.

Recorre-se em massa a mulheres e a crianças, mais baratas e mais dóceis.

As máquinas, sem resguardos, mutilam; o pó, o ruído e os fumos fazem adoecer quem trabalha; as cidades industriais crescem desmesuradamente, insalubres.

Durante décadas, tudo isto foi tido como o preço inevitável do progresso — uma fatalidade a que a sociedade assistia sem se julgar responsável.

🧹 Pott e o primeiro cancro do trabalho

Foi neste tempo que a ciência deu um passo maior. Em 1775, o cirurgião inglês Percivall Pott descreveu uma frequência anormal de cancro do escroto nos limpa-chaminés — muitos deles crianças — e teve a lucidez de o atribuir à fuligem que lhes impregnava a pele. É a primeira descrição de um cancro provocado pelo trabalho, e de uma substância cancerígena de origem profissional — um marco absoluto da nossa História.

À sua volta, multiplicavam-se outros males terríveis: a silicose dos mineiros e canteiros, o saturnismo dos pintores e tipógrafos, e a medonha necrose da mandíbula que desfigurava as operárias das fábricas de fósforos, expostas ao fósforo branco.

As doenças tinham nome, causa e rosto. Faltava a vontade de agir.

📋 A resposta: as primeiras leis e o olhar dos higienistas

A resposta veio, primeiro, de Inglaterra, o berço da indústria.

Uma sucessão de “Factory Acts” — a partir de 1802, e sobretudo a de 1833, que criou os primeiros inspectores das fábricas — começou a limitar o trabalho infantil; a lei das minas, de 1842, proibiu o trabalho de mulheres e crianças no subsolo.

Ao mesmo tempo, um movimento de médicos e reformadores — os higienistas — tornou o sofrimento visível através de grandes inquéritos.

Em França, Villermé retratou a miséria física e moral dos operários têxteis (1840); em Inglaterra, Chadwick ligou insalubridade e doença (1842); na Alemanha, Virchow declararia que «a Medicina é uma ciência social».

Pela primeira vez, a questão do trabalho tornava-se, oficialmente, uma questão de Saúde Pública.

🧵 Portugal: a industrialização tardia e a lei de 1891

E Portugal? Industrializou-se tarde e devagar, sobretudo na segunda metade do século XIX: os lanifícios da Covilhã, os têxteis do Vale do Ave, o vidro da Marinha Grande, o tabaco e a cortiça de Lisboa, a metalurgia nascente. O nosso século XIX foi, em matéria laboral, uma época de abstencionismo liberal — o Estado quase não intervinha.

Isto muda no fim do século, e a data é signif**ativa: pelo Decreto de 14 de Abril de 1891, regulamentou-se o trabalho de menores e das mulheres nos estabelecimentos industriais — a primeira verdadeira lei laboral portuguesa neste domínio —, criando-se circunscrições com inspectores industriais, embrião da futura inspecção do trabalho; em 1895 surgiria a primeira lei de higiene e segurança na construção.

E há uma coincidência que não é só cronológica: 1891 é também o ano de uma Encíclica que mudaria para sempre a forma de pensar a justiça no trabalho. É dela que falarei na próxima crónica.

🏁 Faltava dar à dor uma dimensão moral

Que balanço podemos fazer?
A Revolução Industrial foi, ao mesmo tempo, um extraordinário salto de produção e uma das maiores tragédias sanitárias da história do trabalho.

Deu-nos a prova científ**a do cancro profissional, as primeiras leis de protecção e o olhar social da medicina; mas deixou, por muito tempo, milhões de seres humanos entregues à máquina.

O que ainda faltava não era um facto nem uma lei — era uma voz que desse à questão operária uma dimensão moral universal, capaz de falar aos patrões e aos operários, aos crentes e aos governos, em nome da dignidade da pessoa que trabalha.

Essa voz ergueu-se em Roma, em 1891, e o seu eco chega até hoje. Chamou-se “Rerum Novarum”.

Mario Freitas é médico consultor e Coordenador Regional de Saúde Pública da Região Autónoma dos Açores. É Presidente do Júri Nacional da especialidade de Medicina do Trabalho da Ordem dos Médicos e Presidente da Direcção da ANaMeT Associação Nacional dos Médicos de Medicina do Trabalho. Escreve neste espaço, a título pessoal, sobre temas de Saúde Pública.
© Diário dos Açores · Rubrica «Saúde (do) Pública(o)» · Setembro de 2026

Nova Norma ANaMeT N.º 03/2026 — Gastroenterite Aguda (Norovírus) nos Locais de TrabalhoO norovírus é a principal causa d...
30/08/2026

Nova Norma ANaMeT N.º 03/2026 —
Gastroenterite Aguda (Norovírus) nos Locais de Trabalho

O norovírus é a principal causa de gastroenterite aguda e um dos agentes mais transmissíveis que conhecemos.

Basta uma dose muito baixa para infectar, e a transmissão continua mesmo depois de a pessoa se sentir melhor — o que explica a rapidez com que se propaga em lares, restaurantes, cantinas e unidades fabris.

Perante os casos que estão a acontecer em Portugal, a ANaMeT publica uma Norma que dá aos Serviços de Medicina do Trabalho critérios uniformes de prevenção e de actuação.

O que a Norma define:

🔹 Medidas de prevenção segundo a hierarquia de controlo
🔹 Actuação perante um caso e perante um surto, com fluxogramas
🔹 Critérios e duração da inaptidão temporária (Ficha de Aptidão)
🔹 Quando e como comunicar à autoridade de saúde
🔹 Especificidades das ERPI, restauração e indústria
🔹 Cartazes para afixar no gabinete médico e na empresa

Três mensagens essenciais:

💧 Lavar as mãos com água e sabão — o gel alcoólico não substitui a lavagem contra o norovírus.

🏠 Quem tem vómitos ou diarreia f**a em casa e só regressa 48 horas após a resolução completa dos sintomas e após indicação médica.

🧴 Desinfectar superfícies com hipoclorito de sódio (lixívia).

Norma fundamenta-se na legislação portuguesa e nas orientações da OMS, ECDC, CDC, NIOSH, OSHA e OIT.

📄 Consulte e descarregue a Norma [guardando as imagens que anexamos]





SAÚDE (DO) PÚBLICA(O) (81) — QUARTA DE ONZE PARTES: A pergunta que faltava: Ramazzini e o nascimento de uma Ciência🎯  Te...
27/08/2026

SAÚDE (DO) PÚBLICA(O) (81) — QUARTA DE ONZE PARTES:

A pergunta que faltava: Ramazzini e o nascimento de uma Ciência

🎯 Tema do artigo: chegámos ao homem a quem se chama, com justiça, o pai da Medicina do Trabalho. No ano de 1700, um médico italiano de Módena fez aquilo que ninguém antes tinha ousado: reuniu num único Tratado as doenças de dezenas de ofícios e acrescentou ao exame clínico uma pergunta simples e revolucionária. Hoje conto aos leitores quem foi Bernardino Ramazzini — e mostro como, quase ao mesmo tempo, um médico português pensava a saúde dos povos com o mesmo espírito.

📖 Um Tratado que tardava

Bernardino Ramazzini (1633-1714), professor em Módena e depois em Pádua, publicou em 1700 o “De Morbis Artificum Diatriba” — o «Tratado das Doenças dos Trabalhadores» —, ampliado em 1713 numa segunda edição.

É, por consenso, a obra fundadora da disciplina, da qual faço profissão há 3 décadas (ainda que, chegado a esta fase da minha vida e carreira constate que alguns - que são demais – acham que 2 leituras na internet, e uma autoridade em nome do Estado, os fazem tão especialistas quanto os que estudaram e trabalharam para o ser – quando na verdade acabam por ser não mais que um mau exemplo de gestores públicos, que infelizmente parecem proliferar na administração pública, e também na açoriana).

Antes dele, a observação das doenças do trabalho existia em fragmentos: Hipócrates vira o cólico do chumbo, Agricola descrevera os mineiros, Paracelso os fundidores.

Ramazzini fez algo de diferente e decisivo: sistematizou.

Percorreu mais de 50 ofícios — mineiros e douradores, oleiros e vidreiros, pintores e ferreiros, padeiros e moleiros, escrivães e coveiros, parteiras e lavadeiras — e descreveu, um a um, os males próprios de cada um.

Pela primeira vez, as doenças dos ofícios deixaram de ser curiosidades dispersas para se tornarem um corpo de saber organizado.

🔎 A pergunta que ainda hoje fazemos

O maior legado de Ramazzini, porém, não é uma lista de doenças — é um método.

Ensinou que o médico não devia esperar pelo doente no conforto do seu consultório: devia ir à oficina, ver o artesão no seu posto, no meio do pó, do fumo e do ruído.

E, sobretudo, acrescentou ao célebre interrogatório de Hipócrates uma pergunta que estava em falta, há dois mil anos:

«Qual é a sua profissão?»

Hipócrates mandara perguntar tudo sobre o doente; Ramazzini juntou o essencial que faltava — o ofício.

Esta pergunta continua, hoje, no coração de todos os exames de Medicina do Trabalho.

Quando um médico do trabalho pergunta a um trabalhador o que faz, a que está exposto, há quanto tempo, está a repetir, sem dar por isso, o gesto de um professor de Módena de há mais de 3 séculos.

🪦 O olhar que não desprezava ninguém

Há uma passagem do seu Tratado que o retrata por inteiro. Ramazzini conta que observou um homem a esvaziar uma fossa com pressa, aflito, e ao perguntar-lhe a razão de tanta agitação, ouviu que quem ali demorasse demasiado tempo acabava cego — os gases venenosos das cloacas.

Foi este e outros encontros com os ofícios mais humildes e desprezados que o moveram.

Nisto residiu a sua grandeza moral: interessou-se pelas doenças de quem ninguém queria saber.

E o seu olhar era, além do mais, o de um verdadeiro epidemiologista antes do tempo — foi dos primeiros a notar que as freiras adoeciam mais de certos cancros, associando doença e modo de vida com uma agudeza que só séculos depois se explicaria.

Ver, comparar, relacionar: é disto que a ciência é feita.

💡 Portugal: Ribeiro Sanches e a saúde dos povos

E entre nós, neste tempo?

Portugal deu à mesma época uma das suas figuras maiores das Luzes: António Nunes Ribeiro Sanches (1699-1783), médico de ascendência judaica, exilado, tão respeitado na Europa que Diderot lhe pediu textos para a “Encyclopédie”.

No seu “Tratado da Conservação da Saúde dos Povos” (Paris, 1756), publicado no rescaldo do Terramoto de 1755, defendeu uma verdadeira «medicina política»:

a prevenção como primeiro degrau da terapêutica e o Estado como responsável pela higiene do corpo colectivo — dos hospitais aos quartéis, das prisões às escolas.

É um pensamento irmão do de Ramazzini, e antecipa em quase dois séculos a ideia de que proteger a saúde é dever público.

Há, porém, uma lição amarga: o Tratado teve escassa repercussão na sociedade portuguesa do seu tempo.

Como tantas vezes na História, o saber chegou antes da vontade de o aplicar.

🏁 Um saber pronto — à espera do seu maior teste

Que balanço podemos fazer?

No dealbar do século XVIII, a Medicina do Trabalho já tinha, em rigor, tudo o que precisava para existir: um método, uma pergunta fundadora, um Tratado sistemático e a convicção de que a prevenção é um dever.

Ramazzini dera-lhe corpo; Ribeiro Sanches dera-lhe uma dimensão de Estado.

Faltava, no entanto, o mais difícil — que a sociedade agisse em consonância.

E o teste que aí vinha seria brutal: poucas décadas depois, a Revolução Industrial multiplicaria os riscos numa escala que nem Ramazzini poderia imaginar, atirando para as fábricas e para as minas multidões de homens, mulheres e crianças.

O saber estava pronto.

A questão era se o mundo estaria à altura dele. É essa a história da minha próxima crónica.

Mario Freitas é médico consultor e Coordenador Regional de Saúde Pública da Região Autónoma dos Açores.
É Presidente do Júri Nacional da especialidade de Medicina do Trabalho da Ordem dos Médicos e Presidente da Direcção da ANaMeT.
Escreve neste espaço, a título pessoal, sobre temas de Saúde Pública.

© Diário dos Açores · Rubrica «Saúde (do) Pública(o)» · Agosto de 2026

SAÚDE (DO) PÚBLICA(O) (80) — TERCEIRA DE ONZE PARTES: O Renascimento desce às minas🎯 Tema do artigo: depois de a Idade M...
19/08/2026

SAÚDE (DO) PÚBLICA(O) (80) — TERCEIRA DE ONZE PARTES:

O Renascimento desce às minas

🎯 Tema do artigo: depois de a Idade Média ter dignif**ado o trabalho, faltava dar à Medicina a coragem de o observar. Foi o que fez o Renascimento.

Neste artigo conto como dois homens — um médico-alquimista e um médico-mineralogista — desceram ao fundo das minas para descrever as doenças de quem lá trabalhava. E como, ao mesmo tempo, os portugueses levaram o olhar médico para o outro lado do mundo.

👁️. Voltar a ver com os próprios olhos

O Renascimento é, antes de mais, uma revolução do olhar.

Cansados de repetir os antigos, os sábios voltam a observar directamente a Natureza e o corpo humano — Vesálio publica, em 1543, a sua monumental Anatomia, feita de dissecação e não de autoridade, e a imprensa de Gutenberg espalha o saber a uma velocidade nunca antes vista.

No mundo do trabalho, a técnica também acelera: as minas da Europa Central descem a profundidades inéditas em busca de prata e cobre, a metalurgia sofistica-se, e com elas multiplicam-se os perigos.

Era só uma questão de tempo até que alguém aplicasse o novo espírito de observação àquilo que acontecia ao corpo dos mineiros.

⛏️ Agricola e o primeiro retrato das doenças das minas

O primeiro foi Georgius Agricola (1494-1555), médico alemão, chamado o pai da mineralogia.

Na sua obra “De re metallica” (1556, publicada após a sua morte), descreveu com rigor as máquinas, as técnicas e a organização das minas — mas também, os acidentes e as doenças de quem nelas trabalhava.

Falou da «asma dos mineiros» que hoje reconhecemos como silicose, das quedas, dos afogamentos, dos gases mortíferos.

E foi mais longe: propôs soluções — ventilação das galerias, escoamento das águas, protecção dos trabalhadores. Pela primeira vez, alguém não se limitava a lamentar o risco: descrevia-o, para o combater.

⚗️ Paracelso e a intuição que funda a toxicologia

O segundo é uma das figuras mais fascinantes da História da Medicina: Paracelso (1493-1541), suíço, alquimista.

Tendo ele próprio trabalhado em minas e fundições no Tirol, escreveu o primeiro tratado inteiramente dedicado às doenças dos mineiros e fundidores — “Sobre a tísica dos mineiros e outras doenças das montanhas”.

Mas o seu maior legado é uma frase que ainda hoje sustenta toda a toxicologia e toda a Medicina do Trabalho: «só a dose faz o veneno».

Nada é, em si, inócuo ou fatal — tudo depende de quanto, quão intensamente e durante quanto tempo se está exposto.

É a semente da ideia moderna de limite de exposição, o princípio que orienta, 5 séculos depois, a vigilância que fazemos todos os dias.

🧭 Portugal: Garcia de Orta e as doenças do mar

E os portugueses…? Estavam, literalmente, a aumentar o mundo — e com ele, o olhar médico.

Em Goa, o médico português Garcia de Orta publicou (em 1563) os “Colóquios dos Simples e Dr**as da Índia”, obra fundadora da farmacologia e da medicina tropical, escrita a partir da observação directa e não dos livros antigos — um dos primeiros textos científicos impressos no Oriente.

Ao mesmo tempo, os Descobrimentos criavam uma nova e terrível patologia do trabalho: o escorbuto, que dizimava as tripulações das naus da Carreira da Índia ao longo de meses de mar, e as condições brutais a bordo, verdadeiro laboratório de uma medicina naval nascente. Portugal levava a ciência da observação aos confins do planeta.

🏁 Mas, faltava ainda juntar tudo isto num sistema…

Que balanço podemos fazer do Renascimento?

Foi imenso o avanço: a observação directa substituiu a repetição dos antigos, as doenças das minas ganharam um retrato e a toxicologia ganhou o seu princípio fundador.

Mas, faltava ainda um passo decisivo.

Agricola olhara sobretudo para os mineiros;
Paracelso, para os mineiros e fundidores.

Ninguém tinha ainda tido a ambição de olhar para “todos” os ofícios — o oleiro e o pintor, o padeiro e o coveiro, o escrivão e a parteira — e de os reunir num único Tratado sistemático.

Este gesto genial, que transformaria observações dispersas numa verdadeira disciplina, seria dado no ano de 1700 por um médico italiano, de Modena. Chamava-se Bernardino Ramazzini, e é dele — do homem a quem chamamos o pai da Medicina do Trabalho — que falarei na próxima crónica.

****Mario Freitastas é médico consultor e Coordenador Regional de Saúde Pública da Região Autónoma dos Açores. É Presidente do Júri Nacional da especialidade de Medicina do Trabalho da Ordem dos Médicos e Presidente da Direcção da ANaMeT. Escreve neste espaço, a título pessoal, sobre temas de Saúde Pública.
© Diário dos Açores · Rubrica «Saúde (do) Pública(o)» · Agosto de 20Medicina do Trabalholho

SAÚDE (DO) PÚBLICA(O) (79) — SEGUNDA DE ONZE PARTES: Mosteiros, corporações e a invenção da dignidade do trabalho🎯  Tema...
12/08/2026

SAÚDE (DO) PÚBLICA(O) (79) — SEGUNDA DE ONZE PARTES:

Mosteiros, corporações e a invenção da dignidade do trabalho

🎯 Tema do artigo: na crónica anterior, a Antiguidade deixou-nos com um paradoxo — sabia ver a doença do trabalho, mas não sentia o dever de proteger quem trabalhava. Hoje mostro como a Idade Média começou a resolver este paradoxo, não através da Ciência, mas através da Consciência: foi preciso, primeiro, que o trabalho manual deixasse de ser desprezado e passasse a ser digno. Esta revolução silenciosa nasceu nos claustros e cresceu nas corporações de ofícios.

⛪ A grande viragem: quando trabalhar passou a santif**ar

A mudança mais importante deste período não é técnica — é moral, e devemo-la ao Cristianismo.

Onde a Grécia e Roma viam no trabalho das mãos uma tarefa servil, a nova Fé viu algo radicalmente diferente.

A Regra de São Bento (séc. VI), que moldou o monaquismo ocidental, condensou-se numa fórmula que se tornou célebre — “ora et labora”, «reza e trabalha» — e prescreveu o trabalho manual como caminho de disciplina e de santif**ação, a par da oração.

Pela primeira vez, uma grande cosmovisão colocou o trabalho, não abaixo da vida virtuosa, mas dentro dela.

Os mosteiros tornaram-se centros de agricultura, de ofícios e de cópia do saber, e o monge que lavrava a terra fazia-o com a mesma dignidade com que rezava. É uma inversão de valores cujo alcance civilizacional é difícil de medir: sem trabalhador digno nunca haveria trabalhador protegido.

🛠️ As corporações e a primeira solidariedade organizada

A partir dos séculos XI e XII, a vida urbana renasce e com ela nascem as corporações de ofícios — associações de mestres, oficiais e aprendizes que regulavam a formação, a qualidade e o preço do trabalho. Mas, para a nossa história, o essencial está noutro lado.

Muitas destas corporações, e as confrarias religiosas a elas ligadas, criaram caixas de auxílio mútuo: fundos que socorriam o membro doente, o inválido, a viúva e o órfão, e pagavam o funeral do companheiro.

É o embrião longínquo da mutualidade e da segurança social — a primeira vez que uma comunidade de trabalho assumiu, de forma organizada, que proteger os seus era um dever colectivo. Cada ofício tinha o seu santo padroeiro, e a fronteira entre o profissional, o social e o religioso era, então, inexistente.

⛏️ A dureza que continuou

Seria falso, porém, pintar um quadro idílico.

A dignidade proclamada convivia com uma realidade dura. A servidão manteve-se durante séculos, e o trabalho nas minas de prata, ferro e cobre da Europa Central era brutal: desabamentos, inundações, ar irrespirável e o «mal da montanha» que hoje reconheceríamos como silicose e intoxicações — tudo sem qualquer prevenção digna desse nome.

A moldura moral já existia; os meios técnicos para agir sobre o risco, esses, ainda não.

Houve, ainda assim, um estranho progresso social vindo da tragédia: quando a Peste Negra (1347-1351) dizimou um terço da Europa, a súbita escassez de braços deu aos sobreviventes um poder negocial inédito — sinal de que o valor do trabalho humano, também economicamente, se tornara impossível de ignorar.

📜 A medicina medieval: guardar o saber antes de o fazer crescer

E a medicina? Neste domínio, a Idade Média foi mais uma guardiã do que inovadora.

Nas universidades que surgem — Salerno, Bolonha, Montpellier, Paris — preserva-se e comenta-se o legado greco-romano, enriquecido pela extraordinária ciência do mundo árabe. O “Cânone” de Avicena (Ibn Sina) tornou-se referência durante séculos e continha já observações sobre os efeitos de certas exposições.

Mas, a sistematização das doenças dos ofícios — o olhar de Hipócrates transformado em método — f**aria à espera. Esta era ainda uma semente adormecida, que só germinaria no Renascimento, quando homens como Paracelso e Agricola descessem, enfim, ao fundo das minas para ver com os seus próprios olhos.

🤲 Portugal: dos mesteres às Misericórdias

Também entre nós esta história tem raízes profundas.

As cidades medievais portuguesas organizavam-se em mesteres — os ofícios —, com as suas confrarias, bandeiras e santos padroeiros; no Porto, a “Casa dos Vinte e Quatro” chegou a dar-lhes voz no governo do município.

Mas, o contributo português mais luminoso vem no limiar da Idade Moderna, quando a tradição caritativa cristã dá frutos institucionais duradouros: o Hospital Real de Todos-os-Santos, mandado erguer por D. João II (1492), que reuniu numa só casa a assistência antes dispersa; e, sobretudo, a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, fundada pela Rainha D. Leonor, em 1498 — mãe de todas as Misericórdias que se espalhariam pelo reino e pelo império.

Mais de cinco séculos volvidos, esta rede de solidariedade continua a cuidar de portugueses — uma das mais antigas e resistentes do mundo, e nossa de raiz.

🏁 A herança da Idade Média: a consciência antes da ciência

Que balanço podemos então fazer?

A Idade Média não nos deu tratados sobre doenças profissionais, nem leis de protecção.

Deu-nos algo mais profundo: a convicção de que o trabalho é digno e de que a comunidade tem deveres para com quem o realiza.

Deu-nos a solidariedade das corporações, os hospitais e a assistência caritativa que a Igreja multiplicou. Faltava-lhe a ciência; mas, sobrava-lhe consciência. E foi esta consciência, herdada e depois secularizada, que tornou possível tudo o que se seguiu.

Na próxima crónica, contarei como o Renascimento devolveu à medicina o gosto de observar — e as doenças dos mineiros deixaram, finalmente, de ser invisíveis.

Mário Freitas é médico consultor e Coordenador Regional de Saúde Pública da Região Autónoma dos Açores. É Presidente do Júri Nacional da especialidade de Medicina do Trabalho da Ordem dos Médicos e Presidente da Direcção da ANaMeT. Escreve neste espaço, a título pessoal, sobre temas de Saúde Pública.
© Diário dos Açores · Rubrica «Saúde (do) Pública(o)» · Agosto de 2026

Quando o trabalho já adoecia (1)🎯  Tema do artigo: começo hoje uma série de artigos sobre a História da Medicina do Trab...
09/08/2026

Quando o trabalho já adoecia (1)

🎯 Tema do artigo: começo hoje uma série de artigos sobre a História da Medicina do Trabalho, das origens mais remotas aos dias de hoje, nestas semanas que antecedem o 1º Congresso Nacional da Associação Nacional de Médicos do Trabalho, que decorrerá no Funchal, nos dias 15 e 16 de Outubro.

E começo pela Antiguidade, onde encontramos uma verdade desconcertante: muito antes de existir a palavra «prevenção», já havia quem reparasse que certos ofícios, trabalhos, matavam.

Faltava aquilo que só milénios depois chegaria: a ideia de que a saúde de quem trabalha é um dever da comunidade.

🏺 Um mundo que trabalhava sem olhar para quem trabalhava

Sejamos claros, porque explica tudo o resto: nas grandes civilizações da Antiguidade o trabalho manual não era um direito — era uma condição.

Quem cavava a mina, fundia o metal ou erguia o templo era, na maioria dos casos, escravo, prisioneiro ou servo.

A filosofia acompanhava a sociedade: os gregos chamavam “banausos”, com desdém, ao trabalho de mãos, e Aristóteles considerava-o incompatível com uma plena cidadania.

Este é o pano de fundo: não havia Medicina do Trabalho porque não havia, ainda, a convicção de que valia a pena proteger o trabalhador.

Porém, o corpo daquela gente falava — e houve quem soubesse escutá-lo.

⚖️ As primeiras regras e os primeiros corpos

Já no Código de Hammurabi (Babilónia, séc. XVIII a.C.) encontramos a origem longínqua de uma ideia que hoje é central: a da responsabilidade por um dano.

O Código fixava honorários e penalizações aos médicos e determinava que o construtor cuja obra desabasse, e matasse, respondia com a própria vida.

Não se trata de reparação de doença profissional, mas é o primeiro reconhecimento de que de um trabalho pode resultar um dano, pelo qual alguém responde.

No Egipto, os papiros médicos, como o de Edwin Smith (séc. XVII a.C.), descrevem com notável rigor fracturas e traumatismos — muitos deles, com toda a probabilidade, acidentes das grandes obras, que ainda hoje admiramos.

🩺 Hipócrates e a primeira doença que vem do trabalho

O salto decisivo é grego. Atribui-se a Hipócrates (séc. V-IV a.C.) a primeira descrição do cólico saturnino — a intoxicação por chumbo — num homem que trabalhava o metal.

Mais importante ainda foi o método que nos legou: o de interrogar o modo de vida do doente, o ambiente, os hábitos.

Faltava-lhe apenas uma pergunta — «qual é a sua profissão?» — que só 2000 anos depois seria formalmente acrescentada.

Mas a intuição já lá estava: a doença tem um contexto, e o trabalho faz parte dele.

🏛️ Roma: o aviso, a máscara e a mina

É em Roma que a observação se acumula.

O arquitecto Vitrúvio (séc. I a.C.), no seu tratado de arquitectura, repara na palidez doentia dos que manuseavam o chumbo e recomenda, por precaução, que a água seja levada em canos de barro e não de chumbo — um dos mais antigos conselhos de saúde pública e ambiental que se conhecem.

Plínio-o-Velho (séc. I d.C.), na sua *História Natural*, descreve trabalhadores das minas que cobrem o rosto com membranas de bexiga de animal, para não respirarem as poeiras — a primeira protecção respiratória documentada da história.

E Galeno deixou testemunho dos v***res sufocantes que assolavam os mineiros. Repare-se: o problema estava identif**ado, e até havia rudimentos de prevenção. Faltava a vontade colectiva de os generalizar.

⚒️ E em solo português: Vipasca, a mina que teve uma lei própria

Não poderia contar esta história sem Portugal — e a Antiguidade dá-nos um capítulo notável. No Alentejo, junto à actual Aljustrel, existiu Vipasca, importante distrito mineiro romano de cobre e pirite.

Foi ali que se descobriram, em 1876 e em 1906, duas Tábuas de Bronze com a *Lex Metalli Vipascensis* — um dos mais completos regulamentos de administração mineira que a Roma antiga nos legou.

Gravado em latim, regulava a exploração, os impostos, os balneários e a própria vida quotidiana do distrito.

É, à sua maneira, um dos mais antigos «regulamentos» de uma actividade laboral perigosa que se conhece — e foi escrito em actual solo português.

Faltava-lhe, é certo, qualquer preocupação com a saúde de quem descia ao poço; mas a ideia de que um trabalho perigoso deve ser regulado por escrito já ali despontava, há 18 séculos, entre nós.

⛓️ A mina como uma sentença

Mas, é preciso não idealizar.

A face escura desta história tem um nome: “damnati ad metalla” — «condenados às minas».

Ser enviado para as minas de ouro ou de mercúrio do Império era, na prática, uma pena de morte adiada.

A técnica existia; a compaixão organizada, não.

O saturnismo, de resto, terá sido um mal da própria elite romana — o chumbo das canalizações e o acetato de chumbo usado para adoçar o vinho —, e há quem especule (é tese debatida) que terá contribuído para males da classe dirigente.

Se assim foi, houve uma singular ironia histórica: o veneno dos que trabalhavam o metal acabou por chegar à mesa dos que os mandavam trabalhar.

🏁 A herança da Antiguidade: uma intuição à espera de uma consciência

Que balanço podemos fazer?

A Antiguidade deixou-nos o olhar, mas não o dever.

Deixou-nos Hipócrates a ver a doença do ofício, Vitrúvio a aconselhar, Plínio a descrever a máscara — fragmentos brilhantes de observação, dispersos, sem sistema e, sobretudo, sem uma moldura moral que transformasse o “reparar” em “proteger”.

Faltava a convicção de que a vida de quem trabalha tem um valor que obriga toda a comunidade. Essa convicção nasceria noutro lugar e noutro tempo — nos claustros da Idade Média, onde uma nova religião ousou dizer que o trabalho das mãos era digno, e até santo. É por aí que seguirei na próxima crónica.

F**a, para já, a lição mais antiga desta história: muito antes de sabermos proteger, já sabíamos ver. E ver sem agir é, também, uma forma de escolher.

Mario Freitas é médico consultor e Coordenador Regional de Saúde Pública da Região Autónoma dos Açores. É Presidente do Júri Nacional da especialidade de Medicina do Trabalho da Ordem dos Médicos e Presidente da Direcção da ANaMeT. Escreve neste espaço, a título pessoal, sobre temas de Saúde Pública.

© Diário dos Açores · Rubrica «Saúde (do) Pública(o)» · Agosto de 2026

Medicina do Trabalho
Mario Freitas

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