03/09/2026
Sobre os vazios…
Terminei o tratamento e não estou feliz.
"Acabou."
A família respira de alívio. Os amigos felicitam. Alguém diz que agora é altura de voltar à vida normal. Talvez até haja uma celebração.
E, claro, existe alívio. Depois de meses de consultas, exames, cirurgias, quimioterapia, radioterapia ou outras terapêuticas, poder finalmente dizer "terminei" pode ser um momento extraordinário.
😶 Mas existe uma parte desta história de que se fala muito menos.
Para algumas pessoas, quando o tratamento termina, começa uma fase emocionalmente estranha e difícil.
Porque durante meses existiu um plano. Havia uma próxima consulta, uma próxima sessão, uma análise, um exame, uma medicação. Havia sempre alguma coisa para fazer.
E depois, de repente, há silêncio.
🏥 O hospital deixa de fazer parte da rotina diária.
As consultas tornam-se menos frequentes.
As pessoas à volta começam a assumir que está tudo bem.
E o doente pode ficar sozinho com uma pergunta que ninguém parece saber responder:
"E agora?"
〰️ Quando toda a gente acha que acabou, mas para o doente ainda não acabou
É importante perceber uma coisa: terminar o tratamento não significa necessariamente que todas as consequências do cancro desapareceram.
O corpo pode continuar cansado. Podem persistir alterações da sensibilidade, neuropatia, problemas digestivos, alterações hormonais, dificuldades de concentração, alterações da sexualidade, cicatrizes, alterações da imagem corporal ou outras consequências relacionadas com a doença e com os tratamentos.
Alguns efeitos podem melhorar progressivamente. Outros podem persistir durante bastante tempo e alguns podem surgir ou tornar-se evidentes meses ou anos depois, dependendo do tipo de cancro e dos tratamentos realizados. Por isso, o acompanhamento depois do tratamento continua a ser importante.
Mas existe também uma consequência que não aparece numa TAC nem numa análise ao sangue:
a pessoa pode deixar de confiar no próprio corpo.
Uma dor de cabeça pode deixar de ser simplesmente uma dor de cabeça.
Uma dor nas costas pode transformar-se imediatamente na pergunta:
"Será que voltou?"
Uma noite mal dormida pode provocar medo.
Uma alteração intestinal pode desencadear uma pesquisa desesperada na internet.
E quando chega a data de uma consulta ou de um exame de controlo, a ansiedade pode aumentar novamente.
É aquilo que muitas pessoas chamam de "scanxiety", a ansiedade associada aos exames e consultas de vigilância. O NCI reconhece que o medo de recorrência pode ser uma fonte importante de sofrimento depois do tratamento.
😱 O medo de que o cancro volte
Este talvez seja um dos aspectos mais difíceis de explicar a quem nunca teve cancro.
Imagine passar meses a lutar contra uma doença e, finalmente, ouvir que o tratamento terminou.
A pessoa deveria estar feliz.
E está.
Mas ao mesmo tempo pensa:
"E se voltar?"
O medo de recorrência é muito comum entre sobreviventes de cancro. Estudos sistemáticos mostram que pode permanecer durante anos, embora a intensidade varie muito entre pessoas e ao longo do tempo. Uma meta-análise publicada em 2023 encontrou uma associação consistente entre o medo de recorrência e sintomas de ansiedade, depressão e sofrimento psicológico.
Isto é importante porque desmonta uma ideia muito injusta:
ter medo de que o cancro volte não significa que a pessoa não esteja grata por estar viva.
Pode estar profundamente feliz por ter terminado o tratamento e, simultaneamente, aterrorizada com a possibilidade de voltar a passar por tudo.
As duas coisas podem existir ao mesmo tempo.
🤚 "Mas o tratamento acabou. Agora tens de seguir em frente."
Esta frase é provavelmente bem-intencionada.
Mas pode ser dolorosa.
Porque "seguir em frente" não significa necessariamente esquecer o que aconteceu.
Uma pessoa que passou por um cancro pode precisar de tempo para reconstruir a relação com o próprio corpo, com a família, com o trabalho e consigo própria.
Durante o tratamento, talvez tenha sido necessário colocar tudo em segundo plano.
Agora espera-se que volte imediatamente a trabalhar.
Que volte a ser o pai ou a mãe de antes.
Que retome a vida social.
Que recupere a energia.
Que volte a ter relações se***is normalmente.
Que faça planos.
Que deixe de falar do cancro.
Mas a recuperação não funciona como um interruptor.
O fim do tratamento pode ser uma transição, não um regresso instantâneo à pessoa que existia antes do diagnóstico.
O próprio NCI descreve alterações físicas, emocionais, sociais, familiares, profissionais e relacionadas com a imagem corporal como componentes importantes da vida depois do tratamento.
🫗 Existe também um vazio
Durante o tratamento, o doente pode sentir que a sua vida está completamente organizada à volta do cancro.
Acorda e sabe o que tem de fazer.
Vai ao hospital.
Faz análises.
Recebe tratamento.
Tem efeitos secundários.
Fala com profissionais de saúde.
Volta para casa.
Prepara-se para a próxima etapa.
Há medo, mas também existe uma estrutura.
Quando o tratamento termina, essa estrutura desaparece parcialmente.
E algumas pessoas sentem um vazio que têm dificuldade em explicar.
Não porque queiram continuar doentes.
Não porque tenham gostado do tratamento.
Mas porque passaram meses num estado de alerta permanente e, de repente, precisam de reaprender a viver sem a mesma vigilância.
É uma mudança psicológica importante.
Durante o tratamento, a prioridade era sobreviver ao tratamento. Depois, é preciso reaprender a viver.
E são coisas diferentes.
🧑🧑🧒🧒 A família também pode mudar de comportamento
Durante a doença, talvez toda a gente perguntasse:
"Como estás?"
"Precisas de alguma coisa?"
"Como correu o tratamento?"
Depois do último tratamento, essas perguntas podem desaparecer rapidamente.
A família pensa:
"Já está tudo bem."
Os amigos pensam:
"Finalmente ultrapassou isto."
O empregador pensa:
"Agora pode voltar ao normal."
E o próprio doente pode sentir que já não tem legitimidade para dizer:
"Na realidade, ainda não estou bem."
É aqui que pode surgir uma espécie de solidão muito particular.
Não é necessariamente estar sozinho.
É sentir que as pessoas à volta deixaram de perceber aquilo que ainda está a acontecer dentro de nós.
🛠️ E voltar ao trabalho?
Para algumas pessoas, regressar ao trabalho é uma parte importante da recuperação.
Pode devolver estrutura, independência financeira, contacto social e uma sensação de normalidade.
Mas não é necessariamente simples.
A capacidade física pode ainda não ser a mesma.
A fadiga pode persistir.
A concentração pode estar alterada.
A pessoa pode ter medo de não conseguir desempenhar as mesmas funções.
Pode existir receio de discriminação.
Pode existir dificuldade em explicar ao empregador aquilo que ainda sente.
E pode existir uma enorme pressão interna para provar:
"Já estou bem."
Mas recuperar de um cancro não significa necessariamente recuperar imediatamente a mesma capacidade física e psicológica que existia antes.
🧑🦽 O corpo pode ter mudado
Há outro aspecto de que se fala pouco.
O cancro pode deixar marcas.
Uma cirurgia pode alterar o corpo.
A radioterapia pode deixar alterações na pele e nos tecidos.
Alguns tratamentos podem provocar queda de cabelo, alterações de peso ou mudanças hormonais.
Pode existir uma ostomia.
Pode existir uma cicatriz.
Pode existir neuropatia.
Pode existir infertilidade.
Pode existir disfunção sexual.
Pode existir uma sensação de que o corpo deixou de ser completamente familiar.
E isto pode afetar a autoestima, a intimidade e a relação com o parceiro.
Não é superficial.
O corpo é uma parte importante da forma como nos relacionamos connosco e com os outros.
🧘♂️ "Estou curado?"
Esta pode ser uma das perguntas mais difíceis.
E a resposta depende do tipo de cancro, estadio, tratamento e contexto clínico.
Nem todos os doentes terminam o tratamento com a mesma situação clínica. Algumas pessoas entram numa fase de vigilância depois de um tratamento com intenção curativa. Outras continuam tratamentos de manutenção. Outras vivem com doença que pode ser controlada durante longos períodos.
Por isso, não existe uma única experiência de "fim do tratamento".
É precisamente por isso que o acompanhamento deve ser individualizado.
Depois do tratamento, deve existir um plano que explique o seguimento, quais os exames necessários, que sintomas devem motivar contacto com a equipa, quais podem ser os efeitos tardios do tratamento e quem será responsável pelo acompanhamento. O NCI recomenda que os sobreviventes recebam um plano de acompanhamento adaptado ao tipo de cancro e aos tratamentos realizados.
😦 E se aparecer uma dor?
Aqui é preciso equilíbrio.
Depois de um cancro, é perfeitamente compreensível que uma pessoa fique atenta a qualquer alteração.
Mas isso não significa que cada sintoma seja uma recaída.
Uma dor de costas pode ser uma contratura.
Uma dor de cabeça pode ser apenas uma dor de cabeça.
Uma alteração intestinal pode ter dezenas de causas.
O próprio NCI alerta para este fenómeno: novos sintomas não significam necessariamente que o cancro regressou. Ainda assim, sintomas novos ou persistentes devem ser comunicados à equipa de saúde, que poderá avaliar se são relacionados com o tratamento, com a doença ou com outra causa.
O objectivo não é viver em estado de vigilância permanente.
É aprender a distinguir atenção à saúde de hipervigilância angustiante.
E isso nem sempre é fácil.
🛑 Quando o medo começa a controlar a vida
Ter medo é normal.
Mas o sofrimento não deve ser simplesmente aceite como inevitável.
Se a ansiedade é intensa, persistente e começa a interferir com o sono, trabalho, relações, atividade diária ou qualidade de vida, é importante falar com a equipa de saúde.
Não é preciso esperar até estar "no limite" para pedir ajuda.
As recomendações da ASCO para sobreviventes adultos de cancro defendem que os doentes e, quando apropriado, familiares ou pessoas próximas devem receber informação sobre ansiedade e depressão e ter acesso a recursos para avaliação e tratamento quando necessário.
Existem intervenções psicológicas estudadas especificamente para o medo de recorrência, e revisões sistemáticas mostram benefício de diferentes abordagens psicoterapêuticas em determinados grupos de sobreviventes.
Pedir ajuda não significa que a pessoa esteja a lidar mal com a sobrevivência.
Significa reconhecer que sobreviver ao cancro também pode exigir cuidados.
👩⚕️ Então, o que deveria acontecer quando o tratamento termina?
Não deveria simplesmente acontecer isto:
"Terminou. Até à próxima."
Deveria existir uma transição.
Uma explicação clara sobre o que acontece a partir daquele momento.
Um plano de acompanhamento.
Informação sobre sintomas que devem ser comunicados.
Orientação sobre efeitos tardios.
Espaço para falar sobre fadiga, sono, sexualidade, imagem corporal, alimentação, atividade física, trabalho, relações familiares e saúde mental.
E, sobretudo, uma oportunidade para o doente fazer perguntas.
Algumas são simples, mas fundamentais:
Quem me vai acompanhar daqui para a frente?
Com que frequência vou ser avaliado?
Que exames vou fazer e porquê?
Que sintomas devo comunicar?
Quais os efeitos tardios que devo conhecer?
Quanto tempo poderá demorar até recuperar fisicamente?
É normal continuar a sentir ansiedade?
A quem posso pedir ajuda se sentir que não estou a conseguir lidar com esta fase?
Estas questões fazem parte de uma boa transição para a fase de sobrevivência.
Talvez o maior erro seja pensar que existe um "normal" para onde todos têm de voltar
Algumas pessoas recuperam rapidamente.
Outras precisam de meses.
Outras ficam com consequências permanentes.
Algumas querem falar sobre o cancro.
Outras preferem não falar.
Algumas sentem uma enorme vontade de celebrar.
Outras sentem medo.
Algumas querem voltar ao trabalho imediatamente.
Outras precisam de tempo.
Não existe uma única maneira correta de viver depois do tratamento.
O objetivo não deveria ser obrigar alguém a voltar a ser exatamente quem era antes do cancro.
Talvez seja construir uma vida nova a partir daquilo que aconteceu.
Com as marcas que ficaram.
Com aquilo que mudou.
Com aquilo que se perdeu.
Mas também com aquilo que continua.
E talvez seja por isso que o fim do tratamento possa ser simultaneamente um dos dias mais felizes e um dos mais assustadores
A última sessão pode trazer lágrimas de alegria.
Mas também pode trazer medo.
Pode trazer alívio.
Mas também vazio.
Pode trazer esperança.
Mas também a pergunta:
"E se voltar?"
Pode trazer vontade de recuperar a vida.
Mas também a sensação de que já não sabemos exatamente como fazê-lo.
E talvez seja importante que familiares e amigos compreendam isto.
Quando alguém termina o tratamento, talvez não precise de ouvir apenas:
"Finalmente acabou."
Talvez precise de ouvir:
"Eu sei que acabou uma fase. Mas sei que para ti ainda há muita coisa para processar. Estou aqui."
Porque o tratamento pode terminar num determinado dia.
A experiência do cancro não termina necessariamente nesse dia.
E ninguém deveria sentir vergonha por isso.
👂 Queremos ouvir quem passou por isto
Se já terminou um tratamento contra o cancro, queremos fazer-lhe uma pergunta que talvez seja mais importante do que todas as outras:
O que ninguém lhe explicou sobre o dia em que o tratamento acabou?
Sentiu alívio? Medo? Vazio? Liberdade? Ansiedade?
Sentiu que a sua família compreendeu o que estava a sentir ou começou imediatamente a agir como se estivesse tudo resolvido?
E existe uma pergunta ainda mais difícil:
Quando toda a gente à sua volta pensava que a doença tinha terminado, sentia que para si ela ainda continuava presente?
Conte-nos a sua experiência nos comentários.
Pode ajudar alguém que acabou agora o tratamento e está a sentir exatamente aquilo que pensava que só lhe acontecia a si.
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