24/08/2026
Talvez não estejas cansada da tua vida. Talvez estejas cansada da pessoa que aprendeste a ser para conseguires vivê-la.
Há pessoas que funcionam muito bem.
Cumprem. Resolvem. Trabalham. Cuidam dos outros. Mantêm tudo a funcionar.
E, precisamente por isso, quase ninguém percebe quando alguma coisa começa a desaparecer por dentro.
Nem sempre existe uma crise.
Por vezes, é muito mais silencioso.
Já não sabes exactamente o que queres, mas sabes muito bem o que esperam de ti.
Descansar traz uma sensação estranha de culpa.
Tomas decisões sobre aquilo que parece ser “o mais sensato” e, mais tarde, f**as a perguntar-te se era realmente aquilo que querias.
Dizes “está tudo bem” porque explicar o que não está bem parece dar mais trabalho do que continuar.
É possível teres uma vida aparentemente organizada e, ainda assim, sentires que alguma coisa deixou de encaixar.
E talvez uma das perguntas mais importantes não seja:
“O que é que se passa comigo?”
Mas sim:
“Em que momento comecei a viver tão bem uma vida que já não sei se é verdadeiramente minha?”
Não precisas de encontrar a resposta imediatamente.
Mas talvez precises de começar a fazer a pergunta.
Porque há coisas que compreendes racionalmente e, mesmo assim, continuam a repetir-se.
Sabes que devias descansar, mas não consegues.
Sabes que devias dizer não, mas acabas por dizer sim.
Sabes que determinada situação já não te faz bem, mas continuas a voltar ao mesmo lugar.
Talvez não te falte vontade.
Talvez exista uma parte de ti que ainda esteja a funcionar segundo regras que aprendeste há muito tempo.
É precisamente aí que pode começar um trabalho terapêutico mais profundo.
Não para te tornares outra pessoa.
Mas para perceberes o que tens estado a sustentar, porquê e a que custo.
Porque nem tudo aquilo que consegues suportar precisa de continuar a ser suportado.
E talvez a mudança comece quando deixas de perguntar apenas “o que devo fazer?” e começas a perguntar “porque é que continuo a fazer isto, mesmo quando já sei que não quero?”