07/09/2026
O cancro pode mudar a forma como uma pessoa pensa e reage?
“Ele já não é a mesma pessoa.”
“Está muito mais irritável.”
“Antes tinha paciência para tudo. Agora explode por qualquer coisa.”
“Parece que está sempre distante.”
“Esquece-se de coisas que antes nunca esquecia.”
“Há dias em que parece outra pessoa.”
🧑🧑🧒🧒 Estas frases são frequentemente ditas por familiares de pessoas com cancro.
E, por vezes, também pelo próprio doente:
“Não sei o que se passa comigo. Sinto que mudei.”
A resposta é: sim, o cancro e o seu tratamento podem alterar temporariamente — e, em alguns casos, de forma mais prolongada — a maneira como uma pessoa pensa, sente e reage.
Mas isto não significa necessariamente que a pessoa tenha “mudado de personalidade”.
Há várias razões possíveis.
🧠 O cérebro também sente o impacto do cancro
Quando uma pessoa recebe um diagnóstico de cancro, o organismo entra numa situação de enorme exigência física e emocional.
Medo, incerteza, dor, alterações do sono, fadiga, perda de autonomia, preocupação com a família, problemas financeiros e receio da morte podem manter o organismo num estado prolongado de stresse.
E um cérebro constantemente exposto a stresse não funciona necessariamente da mesma forma que antes.
A pessoa pode ficar:
• mais irritável
• mais ansiosa
• emocionalmente mais sensível
• menos tolerante à frustração
• mais pessimista
• mais retraída
• com dificuldade em tomar decisões
• com menor capacidade de concentração
E isto pode acontecer mesmo numa pessoa que anteriormente era extremamente calma.
“Mas ele está diferente…”
Sim.
Mas antes de concluir que “é da personalidade”, é importante perguntar:
O que mudou fisicamente?
🤕 A dor, por exemplo, pode consumir uma enorme quantidade de energia mental.
Uma pessoa que está constantemente com dor tem menos recursos disponíveis para lidar com pequenos problemas do dia-a-dia.
😩 O mesmo acontece com a fadiga relacionada com o cancro.
Não estamos a falar simplesmente de estar cansado.
É uma exaustão que pode afectar a capacidade de concentração, actividade física, motivação e funcionamento diário.
E quando alguém passa dias ou semanas a sentir-se fisicamente esgotado, a sua capacidade de controlar emoções também pode diminuir.
😴 Dormir mal também muda o comportamento
O sono é outro factor frequentemente subestimado.
Dor, ansiedade, tratamentos, corticosteróides, hospitalizações, preocupação e alterações dos horários podem perturbar profundamente o sono.
E a privação de sono pode afectar:
atenção, memória, concentração, humor e capacidade de regular as emoções.
Uma pessoa que dorme mal durante vários dias pode tornar-se muito mais irritável, impulsiva ou emocional.
🧠 E existe o chamado “chemobrain”
Algumas pessoas submetidas a determinados tratamentos oncológicos descrevem alterações cognitivas como:
“Entro numa divisão e esqueço-me porque fui lá.”
“Tenho uma palavra na ponta da língua e não me consigo lembrar.”
“Leio uma coisa e tenho de voltar atrás.”
“Tenho dificuldade em concentrar-me.”
“Antes conseguia fazer várias coisas ao mesmo tempo. Agora não consigo.”
Este fenómeno é frequentemente designado por “chemobrain” ou défice cognitivo associado ao cancro e ao seu tratamento.
Apesar do nome, não ocorre exclusivamente com a quimioterapia.
Alterações cognitivas podem estar relacionadas com vários factores associados ao cancro: a própria doença, tratamentos, fadiga, ansiedade, depressão, perturbações do sono, dor e outras alterações físicas.
E podem afectar memória, atenção, velocidade de processamento e funções executivas.
💊 Os medicamentos também podem contribuir
Outro aspecto importante:
nem todas as alterações comportamentais são causadas directamente pelo cancro.
Alguns medicamentos utilizados durante o tratamento podem influenciar o humor, o sono, a atenção ou o comportamento.
Os corticosteróides, por exemplo, podem provocar em algumas pessoas alterações importantes do sono e do humor, ansiedade, agitação ou irritabilidade.
Por isso, uma mudança súbita de comportamento deve ser avaliada no contexto de toda a situação clínica, e não atribuída automaticamente ao carácter da pessoa.
⚠️ Mas há situações que não devem ser ignoradas
Uma alteração ligeira de concentração ou maior irritabilidade pode acontecer.
Mas uma mudança súbita e marcada do estado mental é diferente.
Confusão, desorientação, sonolência anormal, agitação intensa, alterações importantes do comportamento, alucinações ou dificuldade repentina em falar ou compreender podem indicar um problema médico que precisa de avaliação.
Infecções, alterações dos níveis de sódio ou cálcio, desidratação, alterações metabólicas, efeitos de medicamentos e outras complicações podem provocar delirium ou alterações agudas do estado mental.
Nestes casos, não devemos simplesmente dizer:
“É do cancro.”
É preciso procurar a causa.
❤️ E existe outra parte que raramente se fala
A pessoa pode estar a sofrer sem conseguir explicar aquilo que sente.
Pode saber que está mais irritável, mas não perceber porquê.
Pode querer estar sozinho, mas sentir culpa por afastar a família.
Pode esquecer-se de coisas e ficar assustado.
Pode sentir-se frustrado porque já não consegue fazer aquilo que fazia antes.
Pode olhar para si próprio e pensar:
“Onde está a pessoa que eu era?”
E é aqui que a família pode fazer uma enorme diferença.
Em vez de:
“Estás impossível.”
“Já não se pode falar contigo.”
“Estás diferente.”
“Antes não eras assim.”
pode ser muito mais útil perguntar:
“Tens reparado que te tens sentido diferente?”
“Há alguma coisa que esteja a ser particularmente difícil?”
“Tens dormido bem?”
“Estás com dores?”
“Sentiste alguma alteração na memória ou na concentração?”
Às vezes, aquilo que parece mau feitio é dor.
Aquilo que parece desinteresse pode ser exaustão.
Aquilo que parece esquecimento pode ser défice cognitivo.
Aquilo que parece afastamento pode ser medo.
E aquilo que parece uma mudança de personalidade pode ser uma pessoa simplesmente a tentar sobreviver a uma situação extraordinariamente exigente.
🗣️ Agora queremos ouvir-vos
Se está a passar por um cancro, ou se acompanha alguém que está a passar por esta doença, queremos saber se reconhece alguma destas alterações.
Sentiu que mudou a sua memória?
A concentração?
A paciência?
O humor?
A forma de reagir às pessoas?
Ou sentiu que os outros começaram a dizer:
“Já não és a mesma pessoa.”
Conte-nos nos comentários.
Queremos ouvir as vossas experiências.
Porque falar sobre estas alterações também ajuda a perceber que determinadas experiências não são necessariamente “fraqueza”, “falta de vontade” ou “mau carácter”.
E pode ajudar outras pessoas a reconhecerem aquilo que estão a viver.
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