24/06/2026
Nem todo movimento leva a algum lugar.
Às vezes, a pessoa acorda, corre, pensa, promete mudar, volta ao mesmo assunto, revisita a mesma mágoa, responde a mesma mensagem, aceita o mesmo tipo de desculpa, pisa no mesmo chão gasto. De longe, parece caminhada. De perto, é círculo.
O círculo também cansa.
Ele levanta poeira, marca o corpo, dá a falsa sensação de que alguma coisa está acontecendo. Mas, quando a tarde cai, você olha em volta e continua diante da mesma paisagem, com o mesmo peso nas mãos, a mesma pergunta velha mordendo por dentro.
Curar exige outra direção.
Não aquela volta repetida em torno da ferida, procurando um detalhe novo onde só existe dor antiga. Não a insistência em explicar para quem nunca quis escutar. Não o costume de chamar de destino aquilo que já virou prisão.
A estrada costuma assustar porque não promete retorno imediato. Ela pede passo. Pede que você deixe para trás uma versão conhecida, mesmo machucada, mesmo cansada, mesmo acostumada ao próprio labirinto. Pede que seus pés aprendam a confiar no rumo antes que o horizonte se abra por completo.
Siga.
Mesmo que o começo pareça seco. Mesmo que a luz ainda esteja longe. Mesmo que uma parte sua queira voltar para o círculo, porque ao menos ali a dor já tem endereço.
A repetição conhece suas fraquezas. A cura conhece sua coragem.
Um dia, você percebe que não precisava entender tudo para sair. Bastava parar de alimentar a volta. Bastava escolher uma linha reta no meio do deserto e andar, sem negociar com aquilo que sempre te puxou de volta.
A estrada não apaga o que aconteceu.
Ela apenas impede que o passado continue desenhando o chão por onde você passa.
E há um sol esperando adiante, não para provar que foi fácil, mas para mostrar que você finalmente saiu do mesmo lugar.