12/10/2026
Há pessoas que entram na nossa vida como pacientes e, sem darmos conta, acabam por ocupar um lugar no coração que já não pertence à profissão. Pertence à vida.
Faz hoje 11 anos que conheci a D. Ilda. Na altura, tinha uma preocupação muito concreta: precisava de ter a lombar sem dor, porque gostava de dançar três vezes por semana com o marido. Foi assim que tudo começou.
O que nenhum de nós imaginava é que, ao longo destes 11 anos, eu não seria o único a cuidar. Com a sua genuinidade, irreverência, os seus conselhos e as nossas gargalhadas, a D. Ilda também cuidaria de mim. À sua maneira, sem pedir licença e sem sequer perceber o quanto isso significa.
É a senhora que exige sempre o mesmo horário porque à sexta-feira, pelas 17h, tem cabeleireira. É a senhora que me traz, SEMPRE, um bolo mil-folhas, escondido no mesmo saquinho, como se fosse a primeira vez. 😂
Mas o verdadeiro presente nunca foi o bolo. É saber que, algures na vida de alguém, também temos um lugar. Que alguém se lembra de nós, mesmo quando não estamos presentes. E que há pessoas que nos oferecem carinho sem nunca precisarem de encontrar as palavras certas para o dizer.
A D. Ilda é tempestade e arco-íris. É colo, amizade e verdade. É daquelas pessoas que nos lembram que a nossa profissão vale muito mais do que aquilo que os livros nos ensinam. Porque há dias em que nem nós próprios sabemos se estamos numa consulta de osteopatia ou numa sessão de terapia do riso.
E, às vezes, dou por mim a pensar na falta que me fará um dia. Talvez seja essa uma das formas mais profundas de amar alguém: perceber que essa pessoa se tornou tão importante que a simples ideia de um mundo sem a sua presença nos aperta o coração.
Amo esta senhora. E sei que é recíproco.
Digo-lhe tantas vezes: «Não há mulher que saiba mais da minha vida do que a Ilda.» E ela responde, batendo no peito: «Está aqui tudo guardadinho.» 🙆♂️
Hoje, finalmente, consegui tirar uma fotografia com ela, depois de tanto insistir e de tantas recusas. 😂 Talvez ainda não saiba, mas esta imagem guarda muito mais do que dois sorrisos.
Guarda 11 anos de histórias, confiança, cumplicidade e de um carinho que nasceu numa consulta e cresceu muito para além dela.
Porque, no fim, não são as consultas que ficam na memória. São as pessoas que nos marcam, que nos ensinam e que, sem darem conta, também nos transformam.
E tu, D. Ilda, és uma dessas pessoas que levarei comigo, independentemente do tempo que passar.
Como tantas vezes me dizes:
«Segue sempre o teu propósito, e que se f… tudo!»
Que nunca te faltem motivos para dançar, força para continuar a desafiar a vida e essa irreverência que faz de ti alguém tão especial.
E que eu tenha a sorte de continuar por perto, a cuidar dessa lombar que ainda tem tanta vida para viver.
Há pacientes que tratamos. Há pessoas que nos transformam. E há aquelas que, um dia, percebemos que já fazem parte da nossa história.