31/10/2017
Neurociência da Dor
Nos últimos 20 anos, o conceito de Dor evolucionou consideravelmente, principalmente pelo conceito – Neurociência da Dor - Mesmo assim muitos dos tratamentos atuais da Dor, baseiam-se em modelos absoletos (Low & Butler, 2011), é importante que Treinadores e Readaptadores Físicos compreendam a atual Neurociência da Dor, porque podem estar afetando tanto negativamente como positivamente nela. O Modelo Cartesiano da Dor (1664) é possivelmente a razão de muitos dos conceitos erróneos que temos em relação à Dor e segue sendo ainda o modelo que se encontra mais instituído na atualidade (Ricky Martinez , certificação Maping Training System, 2016).
O mesmo refere que este modelo baseava-se unicamente na lesão do tecido e consequente mais Dor, este ponto de vista incorreto e excessivamente simplificado provocou do mesmo modo opções de tratamento incorretas e excessivamente simplificadas.
Há várias situações que implicam Dor ou não e que colocam as seguintes perguntas: Como se aplicar este modelo à Dor em ausência de lesão nos tecidos? O caso de atletas com lesão nos seus tecidos e que não apresentam nenhum sintoma de Dor? Ou como se explica a dor do membro fantasma? Dor numa parte do corpo amputada!
O que acontece, atualmente, é que muitas vezes desportistas recuperam da lesão estrutural mas seguem manifestando Dor, ou inclusive, não sofrem nenhuma lesão no tecido, mas têm bastante Dor (Haldeman, 1990).
E por outra parte, têm lesões estruturais significativas mas não apresentam sintomas de Dor.
Ricky Martinez , certificação Maping Training System (2016) refere que mais de 350 anos depois da morte de René Descartes o seu modelo da Dor continua exercendo grande influência nos profissionais. No livro de Adriaan Louw (Therapeutic Neuroscience Education, 2014) ele escreve algumas ideias erróneas relativas ao modelo da Dor:
Erróneo “ Existe relação direta entre quantidade de lesão no tecido e o nível de Dor experimentado; toda a Dor é produzida por uma lesão e um incremento da Dor quer dizer mais lesão; no caso de Dor crónico, de acordo com o modelo de Descartes, há Dor nos tecidos que não estão recuperando e se está produzindo mais lesão; A Nocicepção e a Dor são sinónimas;
Um estudo de Louw & Puentedura (2013) analisando se existia relação entre lesão estrutural e Dor: Os resultados demonstraram que Não, no estudo verificaram que 35-40% das pessoas investigadas tinham rotura do manguito rotador, mas assintomáticas (não apresentavam sintomas ou Dor).
¿Existe correlação entre lesão estrutural e Dor?
Atualmente a Neurociência da Dor prova que a Dor surge do cérebro e não dos tecidos!
Antes de tudo é importante compreender que a Dor é um sistema de alarme como já referi no artigo anterior, por tanto é necessária para a sobrevivência de todos os sistemas, está presente desde sempre no ser humano é vital para a nossa evolução. Na realidade, o negativo é a causa, se o Sistema Nervoso não tivesse esta função, não teríamos os alarmes que nos avisam que a nossa sobrevivência está em perigo.
Moseley & butler (2015) explicam que o corpo só pode enviar mensagens de perigo ao cérebro, não mensagens de Dor, a Dor se gera no cérebro. Quando tens fome não é o estomago que envia “sinais de fome”.
É muito importante como Treinadores ou Readaptadores explicar aos nossos atletas ou clientes, o modelo Neurocientífico da Dor, no Centro de Ativação Neuromuscular do Porto é o nosso 1º passo no processo de readaptação.
Quanto menos entendes sobre Dor, mais vais sofrer com a Dor (Moseley et al., 2015).
Moseley et al, (2015) explica que quando te preocupas em relação à tua Dor, a informação de uma fonte verídica pode ajudar-te a sentir melhor, inclusive antes que qualquer tratamento. ¡A INFORMAÇÃO É PODER!
Conceptualização actual da DOR:
Atualmente, a Neurociência da Dor diz-nos que ela é uma experiencia consciente criada pelo cérebro para A nossa proteção, e não têm relação direta com a lesão no tecido. Como já referi acima, pode existir lesão sem existir Dor, mas também pode existir Dor sem existir uma lesão nos tecidos, como exemplo o síndrome do membro fantasma explicado acima.
“Terás Dor quando o teu cérebro conclua que existe mais evidência credível de perigo relacionado com o teu corpo que evidência de segurança relacionada com o teu corpo” (Moseley & Butler, 2015).
Os mesmo autores referem:
- Qualquer coisa que seja perigosa para teus tecidos corporais, vida, estilo de vida, trabalho, teu dia a dia, é uma ameaça para a tua pessoa: os DIMs ‘Danger In Me’;
- Qualquer coisa que te faça mais forte, melhor, mais saudável são os SIMs ‘Safety In Me’;
Criando o conceito de PROTECTÓMETRO, (Moseley & Butler, 2015) relativa à integridade de casa pessoa.
O Protectómetro indica o nível total de perigo ou segurança em ti. Um indicador que se move para cima (SIMs) ou para baixo (Dims) em resposta a qualquer evidência de perigo ou segurança na tua vida. Pessoalmente acredito que este conceito aplica-se a todas as situações na nossa vida, quando algo em um lugar específico corre mal, aparentemente temos o dia deteriorado e todo nesse dia corre mal.
O número e força de DIMs e SIMs determinarão o nível do indicador do Protectómetro. Com DIMs aumentará, com SIMs diminuirá.
A um nível determinado no Protectómetro, o cérebro iniciará a Dor com o objetivo de se proteger.
Também se já tiveste experiencia de Dor ou perigo no passado, o indicador do Protectómetro pode estar “ajustado” e consequentemente mais alto que o normal.
Neuroplasticidade e Dor:
“A neuroplasticidade levou-te àquela situação, e é a Neuroplasticidade que pode fazer com que saias dessa situação” (Moseley & Butler, 2015.
Os mesmo autores explicam que quanto mais tempo o teu Sistema Nervoso esteve a proteger-se, melhor é nessa função (os nervos que enviam mensagens de perigo ao cérebro tornam-se mais sensíveis e as células cerebrais do cérebro relacionadas com a Dor também). O efeito do aumento da sensibilidade faz com que o Protectómetro se torna mais sensível aos DIMs (é mais fácil que se mova para baixo).
Chaves para diminuir a Dor segundo Ricky Martinez, Certificação Mapping Training System, (2016):
- Segundo Butler & Moseley (2003) a chave para diminuir a Dor é a Exposição Gradual ao Stress: encontrar uma linha base de não ameaça e começar a incrementar stress gradualmente respeitando a microprogressão do treino.
- Segurança: Williams et al, (2012) refere que o truque será aprender como encontrar a linha entre fazer o suficiente para que o Sistema se adapte, mas cuidado, não tanto para não despertar o Sistema de Proteção, aportando sempre segurança ao sistema.
- Detetar possíveis “Mapas secundários que podem estar afetando a Dor e tentar modificá-los: exemplo: tarefas com alto grau de nocicepção, DIMs, alterações nos mapas motores e alterações nos mapas propriocetivos (Ricky Martinez, Certificação Mapping Training System, 2016). (explicarei no próximo artigo o que são os Mapas Cerebrais)
De acordo com Ricky Martinez, Certificação Mapping Training System, (2016) qualquer treino deveria ser um SOMA DE SIMS: qualquer exercício criado, teste realizado pelo treinador ou readaptador, comunicação com o atleta ou cliente, a linguagem que utilizo para comunicar-me, a mensagem que transmito, deveria aportar Sempre Segurança ao seu cérebro.
O mesmo refere Cuidado com a Fadiga, deve ser considerada como um output de proteção do Sistema, em certo modo é criar um DIM. Deve-se controlar muito bem os níveis de fadiga que poderão estar a produzir-se. Como Readaptadores e Treinadores devemos ser totalmente conscientes disso.
Este artigo é baseado em toda a informação teórica e prática de Ricky Martinez na Certificação Mapping Training System , 2016)