28/09/2026
Gostaria de partilhar convosco uma reflexão baseada na experiência que tenho tido desde 2022, ano em que comecei a visitar a Fisioexpo, em Madrid.
Desde a primeira edição que tenho sentido uma evolução muito significativa, e diria mesmo abismal, na presença e na utilização da tecnologia aplicada à prática clínica. Em 2026, essa tendência tornou-se particularmente evidente.
Este ano foi notória a presença de um número crescente de empresas que apresentam equipamentos de apoio ao diagnóstico, nomeadamente ecógrafos, bem como sistemas de análise postural cada vez mais sofisticados, capazes de apresentar os resultados através de representações gráficas que, visualmente, se aproximam daquilo que estamos habituados a associar a exames de Rx.
Na área terapêutica, encontrei também uma enorme diversidade de equipamentos, alguns deles combinando diferentes modalidades de eletroterapia, nomeadamente associação de tens com radiofrequência (tecar). Paralelamente, a inteligência artificial começa a assumir uma presença cada vez mais evidente, não apenas na gestão clínica, mas também na avaliação e na própria intervenção terapêutica, o que deveras me assusta.
É interessante observar esta evolução no contexto espanhol, onde a osteopatia continua a não estar regulamentada enquanto profissão autónoma e surge, em grande medida, integrada na formação complementar de fisioterapeutas. Apesar disso, a ecografia musculoesquelética, particularmente enquanto ferramenta de avaliação funcional e de biofeedback, tem vindo a ocupar um espaço cada vez mais relevante na prática de fisioterapeutas e osteopatas, penso que em 2022 haveria não mais de 2 ou 3 expositores que apresentaram ecografos este ano eram mais do dobro e com muita afluência.
Outro aspeto que me chamou a atenção este ano foi o aumento significativo da presença de profissionais portugueses. Houve momentos em que, de um lado, ouvia espanhol e, do outro, português. É interessante perceber como estes eventos se estão a tornar cada vez mais pontos de encontro entre profissionais de diferentes países.
Saí, no entanto, desta edição com uma sensação contraditória.
Por um lado, é inegável que a tecnologia oferece ferramentas extraordinárias para complementar a avaliação e á intervenção terapêutica, a ecografia, por exemplo, quando corretamente utilizada e interpretada dentro das suas competências, pode acrescentar uma dimensão importante à avaliação musculoesquelética e funcional.
Por outro lado, fiquei com a sensação de que a terapia manual e, de uma forma geral, o contacto clínico direto com o paciente parece estar a perder a importância em práticas profissionais que sempre dela dependeram e fizeram apanágio, perante uma crescente dependência da tecnologia.
Não considero que a questão seja escolher entre terapia manual ou tecnologia. Talvez o verdadeiro desafio seja encontrar o equilíbrio entre ambas.
A tecnologia deve aumentar a nossa capacidade de observar, compreender e acompanhar o paciente, e não substituir o raciocínio clínico, a palpação, a avaliação funcional ou a relação terapêutica.
A Fisioexpo 2026 deixou-me precisamente esta reflexão: até que ponto estamos a utilizar a tecnologia para melhorar a nossa prática e em que momento começamos, inadvertidamente, a adaptar a nossa prática à tecnologia?
Penso que esta é uma discussão importante para todos nós, enquanto osteopatas, fisioterapeutas e profissionais de saúde.
Obrigado pela atenção.