24/04/2026
Episódio 54
O dia D do internamento
Chegou o tão temido, mas ao mesmo tempo aguardado, dia D — o dia do raio-X. O dia em que iria finalmente saber se o meu corpo estava a reagir de forma a resolver a obstrução intestinal sem necessidade de cirurgia.
Acordo mais ansioso do que no dia anterior, mas também bastante confiante de que as coisas estariam no bom caminho. Levanto-me, deixo para trás a minha fiel companheira — a máquina do soro e monitorização — e vou fazer a minha higiene. Desta vez, com o catéter numa nova posição, tudo se torna mais fácil, e a aventura do dia anterior é bem mais simples.
Consigo também fazer as minhas necessidades, e isso é mais uma luz de esperança de que tudo está a evoluir positivamente.
Regresso ao quarto. As enfermeiras fazem os controlos habituais e todos os parâmetros estão normais. Até agora, só boas notícias — o dia D começa bem.
A manhã passa entre conversas com o senhor da cama ao lado e a ver os Jogos Olímpicos. Uma excelente companhia nesta aventura, especialmente porque adoro desporto. Entretanto, chegam também os meus pais, trazendo com eles mais vida e animação ao quarto.
À hora de almoço, chega a despedida deles… e o momento de ver os colegas de quarto comerem, enquanto eu continuo apenas com soro e medicação 😔.
Às 14h, finalmente, a enfermeira pede a uma auxiliar para me levar à sala de raio-X. Trazem uma cadeira de rodas — e é aí que o coração dispara. Os nervos aumentam. A tensão instala-se.
“E se não está a correr bem?”
Afasto rapidamente o pensamento e tento focar-me no positivo: tudo vai correr bem.
Durante o percurso até à sala, vou em silêncio, a rezar. Peço proteção a Deus e faço uma promessa à Santinha de Balazar: ir a pé agradecer se tudo estiver bem. Peço também aos meus familiares que já partiram que intercedam por mim.
Espero cerca de cinco minutos à porta até que chamam pelo meu nome.
Faço o exame.
No final, ainda tento perguntar como estão as coisas, mas a técnica responde que será o médico a dar essa informação. E é nesse momento que a angústia se instala com mais força: “isto não deve estar bem… vou ter de ser operado”.
O regresso ao quarto parece muito mais longo. A incerteza pesa.
Chego cabisbaixo… mas pouco depois chega a minha esposa. A presença dela muda tudo. Traz leveza, apoio, força.
Decido não pensar mais no exame. Passamos a tarde juntos, a tratar de faturas e assuntos da festa de Nossa Senhora das Dores, que estávamos a ajudar a organizar.
Chega a hora de ela ir embora.
Hoje custa mais.
Mesmo também angustiada, tenta transmitir-me calma e confiança. Diz-me que tudo vai f**ar bem e pede-me para lhe ligar assim que souber alguma coisa.
Não sabia se os resultados chegariam nesse dia ou apenas no seguinte. Só sabia que não iria aguentar mais uma noite naquela incerteza.
Por volta das 20h, entra o médico de gastro.
Sinto imediatamente: é agora.
Ele olha para mim e diz:
— Tenho boas notícias. O intestino está desobstruído.
Um alívio enorme percorre o meu corpo. Uma alegria difícil de descrever.
Pergunto como conseguem saber isso apenas com o raio-X, e ele explica: pela presença de ar e pela distensão do intestino após o local da obstrução.
Explica-me também os próximos passos e diz que, se tudo continuar assim, poderei ter alta na sexta-feira.
Agradeço-lhe profundamente.
Assim que sai, ligo à minha esposa — que está na festa de anos do meu cunhado — e a alegria é imediata dos dois lados.
O pesadelo começa finalmente a ter um fim à vista.
Nessa noite… tudo parece mais leve.
E, pela primeira vez, tenho a melhor noite desde que estou naquele hospital.