Um farmaceutico com Crohn a história

Um farmaceutico com Crohn a história Farmaceutico, casado, pai de 2 filhas e doente de Crohn desde 2014. Adoro a minha familia, profissão e escrever.

Episódio 54O dia D do internamentoChegou o tão temido, mas ao mesmo tempo aguardado, dia D — o dia do raio-X. O dia em q...
24/04/2026

Episódio 54
O dia D do internamento

Chegou o tão temido, mas ao mesmo tempo aguardado, dia D — o dia do raio-X. O dia em que iria finalmente saber se o meu corpo estava a reagir de forma a resolver a obstrução intestinal sem necessidade de cirurgia.

Acordo mais ansioso do que no dia anterior, mas também bastante confiante de que as coisas estariam no bom caminho. Levanto-me, deixo para trás a minha fiel companheira — a máquina do soro e monitorização — e vou fazer a minha higiene. Desta vez, com o catéter numa nova posição, tudo se torna mais fácil, e a aventura do dia anterior é bem mais simples.

Consigo também fazer as minhas necessidades, e isso é mais uma luz de esperança de que tudo está a evoluir positivamente.

Regresso ao quarto. As enfermeiras fazem os controlos habituais e todos os parâmetros estão normais. Até agora, só boas notícias — o dia D começa bem.

A manhã passa entre conversas com o senhor da cama ao lado e a ver os Jogos Olímpicos. Uma excelente companhia nesta aventura, especialmente porque adoro desporto. Entretanto, chegam também os meus pais, trazendo com eles mais vida e animação ao quarto.

À hora de almoço, chega a despedida deles… e o momento de ver os colegas de quarto comerem, enquanto eu continuo apenas com soro e medicação 😔.

Às 14h, finalmente, a enfermeira pede a uma auxiliar para me levar à sala de raio-X. Trazem uma cadeira de rodas — e é aí que o coração dispara. Os nervos aumentam. A tensão instala-se.

“E se não está a correr bem?”

Afasto rapidamente o pensamento e tento focar-me no positivo: tudo vai correr bem.

Durante o percurso até à sala, vou em silêncio, a rezar. Peço proteção a Deus e faço uma promessa à Santinha de Balazar: ir a pé agradecer se tudo estiver bem. Peço também aos meus familiares que já partiram que intercedam por mim.

Espero cerca de cinco minutos à porta até que chamam pelo meu nome.

Faço o exame.

No final, ainda tento perguntar como estão as coisas, mas a técnica responde que será o médico a dar essa informação. E é nesse momento que a angústia se instala com mais força: “isto não deve estar bem… vou ter de ser operado”.

O regresso ao quarto parece muito mais longo. A incerteza pesa.

Chego cabisbaixo… mas pouco depois chega a minha esposa. A presença dela muda tudo. Traz leveza, apoio, força.

Decido não pensar mais no exame. Passamos a tarde juntos, a tratar de faturas e assuntos da festa de Nossa Senhora das Dores, que estávamos a ajudar a organizar.

Chega a hora de ela ir embora.

Hoje custa mais.

Mesmo também angustiada, tenta transmitir-me calma e confiança. Diz-me que tudo vai f**ar bem e pede-me para lhe ligar assim que souber alguma coisa.

Não sabia se os resultados chegariam nesse dia ou apenas no seguinte. Só sabia que não iria aguentar mais uma noite naquela incerteza.

Por volta das 20h, entra o médico de gastro.

Sinto imediatamente: é agora.

Ele olha para mim e diz:

— Tenho boas notícias. O intestino está desobstruído.

Um alívio enorme percorre o meu corpo. Uma alegria difícil de descrever.

Pergunto como conseguem saber isso apenas com o raio-X, e ele explica: pela presença de ar e pela distensão do intestino após o local da obstrução.

Explica-me também os próximos passos e diz que, se tudo continuar assim, poderei ter alta na sexta-feira.

Agradeço-lhe profundamente.

Assim que sai, ligo à minha esposa — que está na festa de anos do meu cunhado — e a alegria é imediata dos dois lados.

O pesadelo começa finalmente a ter um fim à vista.

Nessa noite… tudo parece mais leve.

E, pela primeira vez, tenho a melhor noite desde que estou naquele hospital.

Episódio 53 – Entre o medo da cirurgia e a esperança do tratamento, aquele segundo dia podia mudar tudoDepois da noite a...
10/03/2026

Episódio 53 – Entre o medo da cirurgia e a esperança do tratamento, aquele segundo dia podia mudar tudo

Depois da noite atribulada do primeiro dia, finalmente nasce um novo dia. Era um dia muito esperado, porque seria o início do tratamento para tentar resolver a obstrução intestinal.

Tal como tinha referido no episódio anterior, depois das rotinas matinais de verif**ação dos parâmetros de saúde — tensão, temperatura, oxigenação — sou finalmente libertado da minha fiel companheira da noite anterior: a máquina que monitorizava constantemente o meu estado. Aproveito esse momento para poder fazer a minha higiene diária.

Enquanto isso, as auxiliares mudam os lençóis da cama e as enfermeiras passam pelo quarto para perguntar como passei a noite e como me sinto. Respondo com sinceridade: um pouco ansioso com o início do tratamento e ainda em adaptação a esta nova realidade que surgiu de forma tão inesperada.

Indicam-me onde posso ir buscar as toalhas para o banho. Quando chego lá percebo que, na verdade, são mais “mini toalhas” do que toalhas propriamente ditas. Ainda assim, serviriam para o que era preciso. Dizem-me que posso ir tomar banho quando quiser.

Mas tomar banho acaba por se tornar uma pequena aventura. Não posso molhar o catéter no braço, o que transforma uma tarefa simples num verdadeiro exercício de logística. Tento várias estratégias para conseguir lavar-me o melhor possível sem comprometer o catéter. No final, felizmente, a missão é cumprida: consigo tomar banho e o catéter sai ileso desta pequena batalha.

Regresso ao quarto e noto uma coisa positiva: o dia parece estar menos quente do que o anterior. Uma boa notícia.

Agora resta esperar pelo momento que tanto aguardava: o início da medicação.
Mas o tempo vai passando…
9h00…
9h30…
E ainda nada.

Às 9h45 entra finalmente no quarto o médico de gastroenterologia que me irá acompanhar durante o internamento. Pergunta-me como me sinto, se tenho dores e se tenho conseguido “fazer a minha vida”. Respondo a tudo com calma e digo-lhe que, felizmente, nessa manhã consegui ir à casa de banho normalmente — algo que para mim, e para os médicos, era um sinal positivo.

Depois de ouvir as minhas respostas, explica-me o plano:
Iria começar o tratamento com cortisona endovenosa em doses altas, com o objetivo de reduzir a inflamação e tentar resolver a obstrução sem necessidade de cirurgia.
Acrescenta ainda que na quarta-feira à tarde faria um raio-X, para avaliar se o intestino já estaria desobstruído.

Fico feliz por finalmente começar o tratamento. Mas, ao mesmo tempo, aquela informação sobre o raio-X deixa-me apreensivo. Aquele exame iria ser decisivo para determinar se conseguiria evitar uma cirurgia.

Pouco depois da conversa, entra a enfermeira e liga finalmente a medicação ao soro.

Aquele momento representava algo muito importante para mim: esperança.

Entretanto chegam os meus pais. A presença deles traz-me uma tranquilidade imediata. É impressionante como a família consegue tornar tudo um pouco mais suportável.

Não consigo deixar de pensar em como foi duro o período do COVID, quando as pessoas estavam internadas e não podiam receber visitas. Ou naqueles que são praticamente “deixados” nos hospitais e não têm ninguém que os vá ver. Deve ser uma solidão difícil de explicar.

A manhã passa rapidamente. O meu pai, como sempre, vai fazendo as suas piadas habituais e acaba por quebrar o gelo com os outros pacientes do quarto.

Por volta das 13h os meus pais vão embora. A tarde seria agora passada com a minha esposa.

Ela chega pouco depois e a presença dela muda completamente o ambiente do dia. Nunca lhe conseguirei agradecer o suficiente por tudo o que fez por mim neste período.

Passamos a tarde a conversar, a distrair-nos e a ver televisão. Estavam a dar os Jogos Olímpicos, o que ajudava a fazer o tempo passar. Neste dia ainda não falávamos da festa de Nossa Senhora das Dores que estávamos a ajudar a organizar como tesoureiros.

Por volta das 19h chega novamente a hora das despedidas. Ela vai para casa e eu fico novamente sozinho no quarto para enfrentar mais uma noite no hospital.

Mas desta vez havia algumas melhorias:
um catéter colocado numa zona mais confortável,
uma almofada que a minha esposa trouxe de casa,
e uma temperatura bem mais agradável.

Tudo parecia reunido para que aquela noite fosse mais tranquila. Ainda assim, ao adormecer, havia uma certeza que não me saía da cabeça: no dia seguinte, um simples raio-X poderia decidir o rumo da minha vida.

Apesar dessa inquietação, a noite acabou por correr melhor do que a anterior.

Quando acordei na manhã seguinte percebi que tinha chegado o dia D do internamento — o dia do raio-X que iria revelar se o tratamento estava, finalmente, a resultar.

Mas essa história…
f**a para o próximo episódio





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🌙 Episódio 52 – A Primeira Noite de InternamentoCerca das 22h30, a ceia é servida aos meus companheiros de quarto. A mim...
20/01/2026

🌙 Episódio 52 – A Primeira Noite de Internamento

Cerca das 22h30, a ceia é servida aos meus companheiros de quarto. A mim, nada. Como já sabem, estou em jejum até se confirmar que a obstrução foi ultrapassada. Curiosamente, o facto de não comer pouco me afeta. O que realmente importa é que o intestino desobstrua e que eu continue sem dores.

E, felizmente, as dores desapareceram e nunca mais voltaram desde a manhã no Hospital da Trofa. Ainda assim, chega agora o verdadeiro desafio: enfrentar a primeira noite no hospital.

Sempre tive um receio enorme da ideia de f**ar internado. Só esse pensamento já me desestabiliza. Mas agora juntam-se mais fatores: a ausência de ar condicionado, o calor infernal que não dá tréguas nem à noite e a consciência de que, para dormir, não me poderei mexer muito. Tenho um cateter na dobra do braço e qualquer movimento mais brusco ativa o alarme da máquina do soro. Tudo isto aumenta a minha insegurança e ansiedade perante esta primeira noite.

O calor é intenso, mesmo já de noite. A única solução para tentar suportá-lo é dormir com as janelas abertas. Eu, que gosto de tudo escuro, vou ter exatamente o oposto. Deito-me e percebo imediatamente que a noite vai ser longa.

Cada movimento do braço direito transforma-se numa pequena aventura. Para além do cateter, há o fio do soro, que não se pode enrolar nem esticar demasiado. Se isso acontecer, o alarme dispara e tenho de chamar a enfermeira.

Primeira posição. Passado pouco tempo, o corpo pede mudança. Primeira aventura. Esqueço-me do fio, viro-me… e pronto. O fio torce, a máquina começa a apitar. Chamo a enfermeira.

O som do alarme traz outro pensamento imediato: “Estou a incomodar as pessoas que partilham o quarto comigo.” Essa ideia aumenta ainda mais a minha ansiedade e afasta-me do meu único objetivo: adormecer. Dormir seria a forma mais rápida de fazer a noite passar.

A enfermeira chega e, de forma muito simpática, desliga o alarme e dá-me algumas dicas para evitar que volte a acontecer. Tento novamente dormir.

Mas não há posição confortável. O calor não ajuda. O cateter e o fio continuam a ser uma preocupação constante. E ainda há a almofada do hospital… tão baixa, mas tão baixa, que parece nem existir. O pescoço começa a ressentir-se e a tensão acumula-se.

Percebo então que esta noite vai mesmo ser longa. Uma verdadeira aventura.

Com o avançar dos minutos — e depois das horas — a ansiedade cresce. Ainda assim, tento manter-me focado: dormir, descansar, aguentar. Finalmente, o cansaço vence. As poucas horas de sono acumuladas nos dois dias anteriores acabam por cobrar o seu preço… e adormeço.

Durmo até cerca das 4h da manhã. Acordo com o som da máquina. Dobrei o braço durante o sono e bloqueei a passagem do soro. Mais uma chamada à enfermeira. Ela vem, resolve a situação e eu tento voltar a adormecer, agora com receio de qualquer movimento que possa ativar novamente o alarme.

Felizmente, não volta a acontecer. Ainda assim, a sensação é clara: dormi pouco ou quase nada durante o resto da noite.

Consigo ver o nascer do sol. Pouco depois das 7h, as enfermeiras entram para os primeiros cuidados da manhã. Medem a temperatura, a tensão arterial e a glicemia. Informam-me que vão mudar a posição do cateter para uma zona do braço que não dobre, para que eu consiga descansar melhor nas próximas noites.

Agradeço, sinceramente. Sinto um pequeno alívio. Sobrevivi à primeira noite no hospital.

Envio uma mensagem à minha esposa a contar como correu. Começa então o segundo dia. O dia em que espero que finalmente iniciem a medicação, que a obstrução se resolva e que tudo fique bem.

Mas isso… f**a para o próximo episódio.

“Se esta história te tocou, partilha. Nunca sabemos quem pode estar a passar pelo mesmo.”

🩺 Episódio 51 –Uma luta no hospitalApós um longo percurso por corredores intermináveis, que pareciam não ter fim, chego ...
02/01/2026

🩺 Episódio 51 –Uma luta no hospital

Após um longo percurso por corredores intermináveis, que pareciam não ter fim, chego finalmente ao meu destino: uma cama na ala velha do Hospital de São João. Estamos no final de julho e o calor nesse dia é sufocante. O ar naquela zona do hospital é quase irrespirável, pesado, quente, opressor.

Fico numa cama junto à janela. No mesmo quarto estão mais dois homens, já de idade, cada um com a sua história — histórias essas que iria descobrir ao longo dos dias seguintes.

Coloco as minhas coisas no pequeno armário que me foi atribuído e troco a roupa do dia pelo pijama. É real. Estou internado. Curiosamente, estou sem dores, mas a minha cabeça, ao contrário do corpo, corre a mil à hora. Pensamentos que não param:
Quanto tempo vou f**ar aqui?
Será que o intestino vai desobstruir?
Vou aguentar vários dias neste lugar?
E quando f**ar sozinho, sem a minha família, como vai ser?
As perguntas ecoam dentro de mim, vezes sem conta.

Passados cerca de 30 minutos, chega a minha esposa. O rosto dela diz tudo — um misto de preocupação, determinação e coragem. Aproxima-se de mim e, de forma quase automática, sinto a minha própria coragem aumentar. Pergunta-me se já comecei a fazer medicação. Digo-lhe que ainda ninguém do internamento veio falar comigo.

A minha maior preocupação era precisamente essa: iniciar rapidamente a medicação. Eu sabia que, com ela, talvez o intestino pudesse desobstruir mais depressa e, assim, regressar mais cedo a casa. Em ambiente hospitalar, isso signif**aria, pelo menos, quatro dias de medicação.

Deito-me na cama. Passa quase uma hora e quinze minutos. Após a minha esposa ir falar com as enfermeiras, finalmente alguém vem ter comigo. Informam-me que ainda não existe medicação prescrita no sistema e que, para já, apenas me iriam colocar soro. Não poderia ingerir nada até existir confirmação de que o intestino estaria desobstruído.

Não comer até não me incomodava — desde que tudo f**asse bem. Mas com aquele calor… não poder beber nada era um verdadeiro desafio. Ainda assim, não havia alternativa.

A enfermeira explica-me que naquela ala existem três casas de banho, três chuveiros, troca diária de lençóis e alerta-me para algo que eu já tinha percebido: o calor seria uma constante, pois não existe ar condicionado.
Tento absorver toda a informação, mas o que realmente me importa é ver a medicação a entrar nas minhas veias. Isso, nesse primeiro dia, nunca acontece. Percebo então que, na melhor das hipóteses, a alta seria na sexta-feira e não na quinta. Mais um dia… 😔

Na televisão do quarto passam aqueles programas típicos das tardes de semana, como os da Júlia Pinheiro. Entre a conversa com a minha esposa, é isso que faço: olho para a televisão sem realmente a ver. O som serve apenas como companhia.
A minha esposa, sempre de mão dada comigo, volta a questionar as enfermeiras sobre a medicação. Desta vez, a resposta é mais rude: nada consta no sistema, contrariando a informação que o meu primo, gastroenterologista, me ia passando. Tivemos de nos resignar. O primeiro dia seria assim — apenas com soro.

Entretanto, como os meus pais aguardavam na sala de espera, a minha esposa cede o lugar. Cada despedida dela aumentava em mim um sentimento de impotência difícil de explicar. Tento transmitir-lhe uma força que eu próprio não tinha — e sei que ela também não.

Sobem os meus pais. O meu pai, no seu estilo brincalhão, começa logo a meter conversa com a enfermeira — que claramente não estava com grande disposição — e depois com os meus colegas de quarto. O objetivo era claro: quebrar o gelo. E consegue. E que importante é isso — comunicar, humanizar aquele espaço frio.

Mais tarde, a enfermeira regressa e coloca uma máquina ligada ao soro, responsável por controlar o débito. O problema é que, sempre que existe alguma obstrução, a máquina apita. À noite, eu, a máquina e os seus apitos iríamos viver uma verdadeira aventura… mas isso f**a para o próximo episódio.

A hora das visitas termina. Mais uma despedida. Dolorosa, mas rápida, para não doer ainda mais. Agora fico eu, o hospital, os meus medos e a incerteza de saber como iria aguentar todos aqueles dias.
Antes de me deitar, já com a minha esposa em casa, ligo-lhe para falar com as minhas filhotas. Ao ouvir as vozes delas, trémulas e assustadas, sinto um nó tão profundo na garganta que é impossível não chorar. Tento ser forte, mas não é fácil.

Depois do telefonema, preciso ir à casa de banho pela primeira vez. Não sei bem o que esperar, mas tenho de ir. Levo comigo o suporte com rodas onde está o soro e a tal máquina de controlo. Chego à casa de banho e levo mais um choque de realidade: as condições. Fazer necessidades transforma-se numa verdadeira aventura. O aparelho não cabe no espaço e passa a ser, inevitavelmente, o meu “porteiro” em cada ida à casa de banho.

Regresso ao quarto. As enfermeiras vêm medir a temperatura, a tensão arterial e a glicemia. Felizmente, tudo perfeito. Sem dores.

Chega a hora de dormir. Tomo um alprazolam para tentar descansar, mas sei que o calor, o ambiente hospitalar e tudo o que estou a viver irão dificultar a noite.
No próximo episódio, conto a aventura que foi esta primeira noite de calor infernal num hospital público...















25/12/2025

✨ Feliz Natal ✨

Quero deixar um agradecimento sincero a todos os que me acompanham, leem, comentam e partilham esta caminhada.

Cada mensagem, cada palavra de apoio e cada história partilhada desse lado faz com que Um Farmacêutico com Crohn – A História tenha ainda mais sentido.

Mesmo nos dias difíceis, saber que não estamos sozinhos faz toda a diferença.

Obrigado por fazerem parte desta comunidade 💜

🎧 Esta semana sai um novo episódio, com mais um capítulo real, sem filtros, desta história que também é de muitos.

Boas festas, com saúde, esperança e união.

Episódio 50 – A Entrada nas Urgências e o InternamentoChegamos ao estacionamento e seguimos em silêncio para as urgência...
09/12/2025

Episódio 50 – A Entrada nas Urgências e o Internamento

Chegamos ao estacionamento e seguimos em silêncio para as urgências de adultos do Hospital de São João. Era uma época do ano teoricamente mais calma, mas mesmo assim o ambiente estava longe de vazio. As urgências fervilhavam naquele caos organizado que é tão típico dos hospitais: passos apressados, tosses isoladas, cadeiras ocupadas por rostos cansados e um ar pesado feito de preocupações suspensas.

Apesar de tudo, eu estava um pouco melhor. As dores que me tinham atormentado durante dois dias, roubando-me quase todo o descanso e qualquer sombra de qualidade de vida, tinham abrandado graças à medicação do Hospital da Trofa. Mesmo assim, o cenário à minha volta lembrava-me constantemente que nada estava resolvido.

Faço a admissão e aguardo pela triagem. Sabia perfeitamente qual seria o desfecho — internamento — mas lá no fundo havia uma pequena réstia de esperança, quase infantil, de que talvez um milagre me poupasse. Despeço-me dos meus pais com um beijo rápido e um sorriso ensaiado, como se todos fingíssemos que éramos mais fortes do que realmente éramos. Depois sigo com a minha esposa para a zona mais próxima da sala de triagem.

A espera parecia que seria curta… mas enganou-me. Quarenta e cinco minutos transformaram-se numa eternidade. À minha volta, o sofrimento das outras pessoas começou a pesar mais do que eu queria admitir. Havia quem vomitasse, quem desmaiasse, quem estivesse tão frágil que doía olhar. Cada vez que a minha esposa me perguntava se eu estava bem, respondia que sim — como se a palavra “sim” conseguisse esconder o nó crescente que me apertava o peito. Mas não estava bem. O medo já tinha tomado o seu lugar dentro de mim.

Ia ser internado. Podia precisar de cirurgia ao intestino. Não sabia quanto tempo iria f**ar no hospital. Era como se cada uma destas frases ecoasse repetidamente na minha cabeça, criando um ruído constante impossível de silenciar.

Finalmente, oiço a enfermeira chamar pelo meu nome. Senti um arrepio — o momento estava ali, sem fuga possível. Despeço-me da minha esposa. Os olhos de ambos enchem-se de lágrimas, embora tentemos disfarçar, cada um a querer ser a força do outro. Beijamo-nos e prometemos que tudo vai correr bem, que em breve estaremos de novo juntos em casa com a nossa família. Ela pede-me para ir dando notícias, e entro na triagem com o coração apertado.

Entrego a carta do Hospital da Trofa, explico o que se passa, e a enfermeira coloca-me uma pulseira laranja. A cor doer-me-ia mais tarde: um lembrete da urgência, da gravidade, do caminho que estava prestes a percorrer. Sou encaminhado para a sala dos consultórios médicos e espero que me chamem.

Enquanto espero, vou enviando mensagens à minha esposa, mas por dentro desabo. A solidão amplif**a tudo — cada medo, cada receio, cada imagem que a minha mente insiste em criar. As lágrimas começam a escorrer-me pela cara sem que consiga controlá-las. Levanto-me rapidamente e refugio-me na casa de banho para não ser visto. E ali, sozinho, permito-me chorar. Com força. Com medo. Com tudo aquilo que até então tinha segurado.

Nas próximas horas, eu e os meus medos seríamos uma única companhia.

Falo com o meu primo gastroenterologista, enviando-lhe atualizações para garantir que tudo estava a ser feito como deveria. A enfermeira da triagem tinha dito que seria avaliado por cirurgia, mas quem aparece é um médico de gastroenterologia. Ele já tinha visto os exames e vai direto ao assunto: vou f**ar internado. Não serão necessários mais exames; os do Hospital da Trofa eram suficientes para todo o diagnóstico. Explica-me que vou iniciar doses altas de corticoides, na tentativa de evitar uma cirurgia e resolver a obstrução. E acrescenta uma frase que me atingiu como um murro no estômago: “Não pode ingerir nada, nem sólido, nem líquido. Vai ser alimentado por soro, endovenoso.”

Volto para a sala à espera de vaga no internamento. A enfermeira coloca-me um novo catéter no braço e regresso ao mesmo lugar onde tudo parecia mais pesado. Desta vez, com a certeza inabalável de que não havia volta a dar. Ia enfrentar um dos meus maiores medos: ser internado, e por tempo indefinido.

Enquanto espero, recebo um telefonema da minha patroa. Bastou ouvir a voz dela para as lágrimas voltarem a romper, juntamente com uma fraqueza que nunca tinha sentido na vida. Era como se cada palavra que ouvia me recordasse quão vulnerável estava.

O tempo passa devagar. Quase uma hora depois, finalmente chamam o meu nome:

— Pedro, vamos subir para o internamento.

E ali, naquele segundo, percebi que uma nova história estava prestes a começar — uma história que eu nunca pedi, mas que teria de viver até ao fim...

🩺 Episódio 49 – O Diagnóstico Que Não EsperavaEntramos no consultório do cirurgião. Ele recebe-nos com um ar calmo, mas ...
28/11/2025

🩺 Episódio 49 – O Diagnóstico Que Não Esperava

Entramos no consultório do cirurgião. Ele recebe-nos com um ar calmo, mas carregado de uma preocupação que não tenta disfarçar. Senta-se, olha para nós e diz, com voz séria:

— Não tenho boas notícias. O intestino tem uma obstrução que não conseguimos identif**ar ao certo, mas que está a impedir a passagem normal dos alimentos. Nestes casos, a solução é internamento por 24 horas para tentar reverter… e, se não resultar, teremos de avançar para cirurgia para remover a zona obstruída.

As palavras caem como uma bomba.
O que eu acreditava ser “apenas” mais uma crise — forte, sim, mas familiar — transforma-se num problema grave. Internamento. Cirurgia. E tudo isto a poucas semanas das minhas férias e da festa de Nossa Senhora das Dores 2024.

A minha cabeça entra em curto-circuito. O corpo volta a tremer. Até a dor parece despertar de novo.

E, perante este cenário, digo logo aquilo que o meu instinto sempre soube:
— Não vou f**ar internado no Hospital da Trofa. Se for preciso internamento ou cirurgia, é no São João.
É lá que tenho a minha médica, é lá que conhecem o meu Crohn, e é lá que existem tratamentos que um hospital privado não tem.

O médico não discute, não insiste. Apenas acena e diz para falar com quem preciso antes de decidir.

Tento ligar ao meu primo gastroenterologista. Não atende. A minha esposa segura-me na mão, aflita, repetindo:
— Calma… vai correr bem.

Insisto. Volto a ligar. Envio mensagem.
Até que finalmente consigo falar com ele. Explico tudo, e a resposta é imediata:
— Não fiques no Hospital da Trofa. Vai para o São João. Lá tratamos isso.
O meu maior receio desde que tenho a doença — ser internado no São João — tinha acabado de se tornar real.

O meu primo pede para falar diretamente com o cirurgião do Hospital da Trofa. Falam, alinham tudo:
— Dê-lhe alta, prepare a carta para o São João e envie todos os exames e análises da urgência.
O cirurgião compreende e faz exatamente isso.

Entretanto, o meu primo também avisa os colegas do São João, para que estivessem preparados para a minha chegada.
Eu, com os olhos cheios de lágrimas, percebo finalmente a gravidade da situação. Tento ser forte… mas na maior parte do tempo não consigo.

A minha esposa liga aos meus pais — precisam de me levar ao São João. Liga também à minha sogra, para preparar roupa para o internamento.
Quando os meus pais chegam, a apreensão vê-se no ar, pesa no peito. Apanho a minha esposa a chorar quando achava que eu não estava a ver.
E eu… eu já não consigo segurar as lágrimas.

Vamos até à receção pagar e recolher toda a documentação. A minha cabeça repete a mesma pergunta, sem parar:
Como é que isto aconteceu? O que está a obstruir o intestino?

E então lembro-me da refeição de sábado.
Aquele pedaço duro da carne… que engoli quase sem mastigar.
Não partilho essa hipótese com os meus pais e com a minha esposa, apenas o farei na viagem até ao São João, mas se fosse obrigado a apostar, seria nisso.

A curta viagem até casa faz-se em silêncio absoluto.
Quando chego, a minha sogra e as minhas filhas abrem a porta com lágrimas nos olhos. Mal consigo falar. Só consigo sentir.
E se precisar mesmo de ser operado? E se correr mal?
O medo é esmagador. O olhar das minhas princesas nunca mais irei esquecer e o medo deles ao ver o pai ir para outro hospital...

Troco de roupa para algo confortável, despeço-me delas entre lágrimas e tento dizer — mais para me convencer do que para as tranquilizar — que vou ser forte e em breve estarei de volta.

Entramos então no carro, eu, os meus pais e a minha esposa.
A realidade é avassaladora: tenho uma obstrução intestinal e vou ser internado no São João.

Durante a viagem, quase não falo. Rezamos.
O meu pai tenta, como sempre, aliviar a tensão:
— Vai correr tudo bem, filho. Vai correr bem.

É também no carro que revelo e explico a situação da carne mal mastigada — talvez a única causa plausível para tudo isto.

A mão da minha esposa entrelaçada na minha é a âncora que me impede de desmoronar.

Os 30 minutos até ao São João parecem, ao mesmo tempo, uma eternidade… e demasiado rápidos.
Eu só queria que fosse um pesadelo.
Mas não era.
Era a realidade que eu ia enfrentar dali em diante.

Chegamos ao São João, estacionamos e caminhamos para as urgências.
Mas isso… f**a para o próximo episódio...

Se acham que a minha história pode ajudar alguém, ou se querem acompanhar cada episódio assim que o publico, sigam a minha página. 🙏





🩺 Episódio 48 – A Nova HistóriaChego ao hospital e encontro duas pessoas a serem atendidas para admissão e pagamento. Es...
12/11/2025

🩺 Episódio 48 – A Nova História

Chego ao hospital e encontro duas pessoas a serem atendidas para admissão e pagamento. Este simples pormenor, que noutra altura seria irrelevante, torna-se agora uma eternidade. A dor, o cansaço e o medo transformam cada segundo em tormento.

A minha esposa, sempre atenta, pede-me que me sente e leve o s**o comigo, caso tenha de vomitar. É o que faço. Sento-me, mas a dor, a angústia e o stress são tão intensos que mal consigo respirar. Em apenas cinco minutos, a minha esposa consegue tratar de tudo na secretaria — mas para mim, pareceu uma hora.

Agora só resta esperar pela minha vez: primeiro a triagem com a enfermeira, depois o médico… e, talvez, algum alívio. Felizmente, a urgência do Hospital da Trofa estava quase vazia.

Pouco tempo depois — embora para mim o tempo parecesse distorcido pela dor — sou finalmente chamado pela enfermeira. Explico-lhe o que se passa: doente de Crohn, dores há mais de 24 horas, vómitos, cólicas e uma agonia que já se arrastava há demasiado tempo. Peço, quase em desespero, que me deem algo para aliviar o sofrimento. A enfermeira, profissional e calma, explica-me que só a médica pode prescrever medicação. Eu percebo — mas naquele momento, a espera é um suplício.

Voltamos à sala de espera. Poucos minutos depois, sou chamado pela médica. Explico novamente tudo, com voz fraca mas firme. A médica, apesar de jovem, mostra-se atenta e cuidadosa. Para além da medicação que imploro, decide também pedir um TAC abdominal — quer garantir que não há nada mais grave por trás daquela dor insuportável.

Agradeço e sigo, ainda curvado, até à zona dos cadeirões onde me vão aplicar a medicação antes do exame. Uma enfermeira aproxima-se e, ao ver a minha expressão, diz-me com empatia que vou f**ar melhor. Nunca desejei tanto que uma medicação fizesse efeito.

Começa a correr o soro, a medicação entra lentamente na veia, mas a dor insiste em permanecer. A minha esposa, sempre ao meu lado, segura-me na mão e diz-me para ter calma, para fechar os olhos, reclinar o cadeirão e esperar. E, como que por milagre, a dor começa a ceder. Sinto o corpo relaxar, o peito abrir-se, o ar voltar. Digo-lhe baixinho:
— Está a fazer efeito.
Ela sorri:
— A tua cara já é outra.

Depois de mais de 24 horas de sofrimento, a dor começa finalmente a abandonar-me.

Agora só falta o TAC, os resultados, e poder regressar a casa para descansar. Pelo menos, é o que penso.

A enfermeira aproxima-se e pergunta se já me sinto capaz de ir fazer o exame. Digo-lhe que sim e acompanho-a até à sala de espera dos TACs. Espero, mais tranquilo, até ser chamado. Quando entro, perguntam se já fiz o exame antes; respondo que sim e que não tenho alergias ao contraste.

O exame decorre normalmente. A meio, a enfermeira avisa-me de que será necessário administrar contraste. “Sem problema”, respondo. Só quero que tudo fique esclarecido, para poder ir embora em paz.

Terminado o exame, regressa o silêncio. A enfermeira diz-me que a médica falará comigo assim que o relatório estiver pronto. Volto para o cadeirão, junto da minha esposa, confiante de que tudo correu bem.

Passam 45 minutos. Depois uma hora. Nenhuma notícia. A ansiedade regressa, devagar, como uma maré que insiste em subir. Finalmente, a médica aparece. Senta-se e diz-me, com expressão séria, que detetaram algo no exame e que o colega de cirurgia virá falar comigo.

Fico em silêncio. A minha esposa também. Olhamos um para o outro, tentando disfarçar o medo. Não falamos logo — talvez para não dar força à possibilidade que ambos tememos. Mas ao fim de alguns minutos, quebramos o silêncio.
— Ela disse mesmo cirurgião, não disse?
— Disse…

Nesse instante, a calma que começava a nascer é substituída por uma angústia profunda. O que terá o exame mostrado para chamar um cirurgião?

Esperamos cerca de trinta minutos que parecem uma eternidade. Finalmente, o médico de cirurgia aparece e chama-me. Eu e a minha esposa seguimos para o consultório, de coração apertado, à espera da explicação que poderá mudar o rumo desta nova história...

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